Aula de Karatê no Lar Espírita Alvorada Nova (LEAN) | Foto: Giovanna Dubiniak

Uma reportagem produzida por Clara Ribeiro, Giovanna Dubiniak, Letícia Oliveira e Tainá Luane

Aos sábados, o Lar Espírita Alvorada Nova (LEAN), em Parnamirim, no Rio Grande do Norte, dá lugar ao som do kiai, grito característico do karatê usado para concentrar e liberar energia no momento do golpe. O LEAN é um lar acolhedor de idosos que, através de ajuda comunitária, presta serviços gratuitos à sociedade. Entre eles está o projeto Dojo Lean, que vai além do ensino do karatê e se torna uma oportunidade de inclusão e mudança na vida de quem participa. No piso de madeira, os pés descalços acompanham o ritmo da aula, que reúne alunos de diferentes idades.

O espaço surgiu a partir de uma iniciativa social realizada pelo sensei Gilmar Cabral, 67 anos, dentro do LEAN, com o objetivo de atender crianças, adolescentes e adultos da comunidade por meio do karatê, unindo prática esportiva e formação de valores. Hoje, quem dá continuidade ao projeto é Jualisson Carvalho, 34 anos, que segue conduzindo as aulas e reforçando princípios como disciplina, respeito e autocontrole, que fazem parte da essência da arte marcial.  

O karatê, como é conhecido hoje, tem origem em Okinawa, no Japão, entre os séculos XV e XIX, a partir da mistura de técnicas locais de defesa pessoal com influências de artes marciais chinesas (kung fu) e de lutas com armas. Entre os principais responsáveis pela sua criação está Gichin Funakoshi, considerado o pai do karatê moderno e fundador do estilo Shotokan. Ele foi o responsável por levar a prática do karatê para o resto do Japão, organizando seus princípios e adaptando o ensino para além do combate, funcionando também como uma filosofia de vida, ferramenta de desenvolvimento pessoal e disciplina mental. 

No outro lado do mundo, o sensei Gilmar viu a oportunidade de transformar jovens e adultos com os ensinamentos do esporte. Com 17 anos de história, o LEAN atravessa gerações sustentado pelo mesmo fundamento: o esforço coletivo. Jualisson, que assumiu a liderança da proposta há três anos, conta que o projeto foi construído por Gilmar com a ajuda da própria vizinhança. “Os meninos iam passando na rua e ele ia chamando para o serviço de marcenaria, de pedreiro e tudo”, recorda.

Essa cultura de cooperação permanece viva através de figuras como Diana Teixeira, de 43 anos, mãe de Benício e Bernardo, com 10 e 8 anos de idade respectivamente, que entende que a continuidade das aulas depende de um engajamento que vai além do tatame. Ela exemplifica esse espírito comunitário através de ações práticas do cotidiano: “No sábado passado eu limpei o banheiro das meninas. Hoje, enquanto eles estão no treino, vou limpar o dos meninos. Também trouxe uma cortina que eu tinha em casa para ajudar”, relata. Para Diana, o apoio não precisa ser necessariamente financeiro, pois a manutenção do projeto nasce da união entre o trabalho voluntário, as doações e a presença assídua dos alunos, provando que a “boa vontade” ganha força quando cada um colabora como pode.

Sensei Jualisson Carvalho ensinando Bernardo | Foto por: Clara Ribeiro

Hoje, Jualisson encara o desafio de manter vivo esse legado que sobrevive exclusivamente de doações. Embora a falta de visibilidade seja um obstáculo para um projeto voluntário, o mestre encontra motivação na mudança de comportamento dos alunos: “Tem uma história que me marcou de uma criança com TDAH que chegou aqui sem coordenação e muito distraída. Eu vi claramente a arte do karatê mudando isso nela; uma criança com tanta dificuldade evoluindo o cérebro”, destaca.

Mais do que um local de treinamento, o dojo se torna um lugar onde as interações vão além da formalidade das aulas. Com o tempo, o sensei percebeu que a convivência com os alunos mudou e os vínculos se fortaleceram. “A gente constrói uma relação de amizade, de família”, afirma, ao descrever um ambiente marcado pelo respeito, pela proximidade e irmandade. Isto é perceptível entre Benício e Bernardo que, durante a entrevista, relatam que o projeto se tornou um espaço de felicidade, amizade e aprendizado. Enquanto Benício afirmou gostar dos treinos pela possibilidade de aprender a se defender, Bernardo destacou a amizade construída dentro do dojo como um dos pontos mais importantes da experiência. 

Esse vínculo é ainda mais evidente em histórias que continuam mesmo com o passar dos anos. Durante a conversa, o professor mencionou a trajetória da própria repórter, Clara Ribeiro, como um exemplo desse processo. Ele afirma que, ao encontrá-la novamente, já adulta, isso o fez refletir sobre sua própria trajetória e o desenvolvimento que ambos experimentaram. Ao olhar para si, o professor também percebe que se tornou quem é graças às relações que estabeleceu ao longo do tempo, principalmente por ter iniciado na arte marcial ainda muito jovem. O mestre destaca o papel fundamental das pessoas que o apoiaram ao longo desse percurso, no qual a troca e o aprendizado são recíprocos.

A participação das famílias também é um dos pilares do projeto. Diana conta que decidiu inscrever os filhos após dificuldades financeiras interromperem a prática esportiva que eles já mantinham. A oportunidade surgiu por meio de indicação em um centro espírita, onde soube das atividades oferecidas gratuitamente. Segundo ela, além de retomar o contato com o esporte, o karatê passou a cumprir um papel importante no comportamento dos meninos. “Antes, quando surgia algum conflito, eles iam direto para a discussão. Hoje, pensam duas vezes antes de agir e, muitas vezes, tentam resolver de outra forma”, declara Diana. Além disso, como mãe, ela observa na prática o reforço na gentileza dos garotos e acredita que, quando se tem uma referência de fora, o impacto é ainda maior.

O LEAN escreve sua história há quase duas décadas e prova que, para além da técnica marcial, o que se ensina ali é cidadania e companheirismo. Enquanto houver a disposição de instrutores como Jualisson e a entrega de pessoas como Diana, o tatame continuará sendo solo fértil para a criação de uma comunidade forte e solidária, onde dificuldades são superadas e posturas virtuosas são reforçadas.

Sensei Jualisson e Bernardo | Foto: Clara Ribeiro
Fachada do Dojo Lean | Foto: Clara Ribeiro
Alunos do Dojo Lean com o sensei Jualisson | Foto: Giovanna Dubiniak