Da esquerda para a direita: Marcela Costa, professora do Departamento de Comunicação Social da UFRN e mediadora da mesa, Natália Bonavides e Jana Sá (Foto: Vicente Cabral).

Por: Vicente Cabral.

Na noite da última sexta-feira (20), a mesa “Importância histórica do movimento estudantil e desafios da contemporaneidade” encerrou a Semana de Comunicação 2026, promovida pelo Departamento de Comunicação Social (Decom) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Realizado no anfiteatro do Departamento, o evento teve como convidadas a jornalista e pesquisadora Jana Sá e a advogada e deputada federal Natália Bonavides (PT), ambas ex-militantes do movimento estudantil na Universidade.

Em sua fala, Jana destacou que o maior desafio do movimento estudantil hoje é “como dar sentido novamente à necessidade da organização coletiva”, especialmente “em um tempo que empurra tudo para o individualismo”. De acordo com a jornalista, o que se vê na sociedade “é um projeto que despolitiza, que isola, que faz com que as pessoas acreditem que seus problemas não são coletivos, eles são individuais”.

Para ela, frente a esse contexto, o movimento estudantil “pode e deve ser” uma resposta coletiva aos problemas sociais estruturais, dentro e fora do ambiente universitário, com formas de mobilização que ocupem “o espaço da rua, da Universidade, do presencial”. Como exemplo, ela ressaltou a luta contra o assédio e à violência: “A gente não pode aceitar e achar que é legal que a Universidade continue passando pano para os professores que fazem isso com seus alunos. Mas isso só vai deixar de existir se vocês se organizarem”.

“Vocês têm um centro acadêmico do curso de vocês? Vocês conhecem as ações que estão sendo realizadas hoje pelo diretório acadêmico? Vocês acham que aqui tem coisas a melhorar, de infraestrutura? Não só no departamento de vocês, mas na Universidade”, questionou aos estudantes presentes.

Natália, por sua vez, apontou que a pauta mais óbvia do movimento estudantil é aquela que diz respeito às condições de vida dos estudantes: como está a sala, se toda a grade de aulas está com professores designados, se a biblioteca possui os livros que os estudantes julgam ser necessários ter, como estão a comida do Restaurante Universitário e as condições da Residência.

Jana Sá, à esquerda, e Natália Bonavides, durante mesa sobre movimento estudantil no Decom da UFRN (Foto: Rierson Marcos)

Jana Sá, à esquerda, e Natália Bonavides, durante mesa sobre movimento estudantil no Decom da UFRN (Foto: Rierson Marcos)

“Quando você se organiza, por exemplo, no centro acadêmico, você tem ali uma representação que vai poder, inclusive, dialogar com a gestão do Decom, com os diretores dos cursos e mesmo com a Reitoria”, disse.

Em seguida, a deputada fez menção à uma série de atuações do movimento que, historicamente, foram capazes de mobilizar os estudantes sobre temas “que iam muito além dos temas do cotidiano estudantil”, lembrando a luta contra a Ditadura Militar e episódios como a ocupação da Câmara Municipal de Natal, em 2011, no contexto da Comissão Especial de Inquérito dos Aluguéis.

“No mínimo, quando a gente vai para a rua, a gente fica em condições de negociação melhor. A gente fica em condições de exigir mais do que é o certo, de exigir mais dos nossos direitos. E quando você está falando de estudante, isso aqui significa se vai ter bolsa ou não, para quando vocês quiserem participar de algum projeto. Se vai ter apoio ou não para estudante poder viajar, participar de eventos, congressos”, afirmou. “A Universidade tem um orçamento. Quando o movimento estudantil pressiona, consegue deslocar recurso para suas pautas”.

Crise de identificação

Em resposta à pergunta feita pela Agência Fotec acerca da falta de identificação dos estudantes com os grupos que fazem o movimento estudantil e com as gestões por eles conduzidas, Natália fez menção ao presidente Lula (PT): “Quem não gosta de política é governado por quem gosta”.

De acordo com ela, diante das críticas à situação atual, o que pode ser feito é “formar chapa, propor projetos”, promover atividades, plenárias e debates que, baseadas nas ações concretas do dia a dia, criem “uma ideia de unidade” entre os estudantes. “Para mim, a forma é essa. É se juntar. Se juntar e começar a fazer atividades, que as pessoas que têm os interesses comuns começam a chegar. Às vezes, o que falta é o espaço”.

Ocorrido no anfiteatro do Decom da UFRN, evento teve participação de estudantes e professores (Foto: Rierson Marcos).

Complementando a deputada, Jana chamou atenção para um “processo de esvaziamento político” que pode ocorrer dentro do movimento estudantil: “Existe uma crítica? Há um esvaziamento? Vocês estão vendo a atuação do DCE? A participação, o engajamento dentro das lutas, debates políticos? Não? É o que querem que seja feito? Então, vamos disputar esse espaço. E, para disputar esses espaços, eu preciso me organizar primeiro localmente. Na política, não existe espaço vazio. Esses espaços são sempre ocupados. E nós vimos como foi ocupado muito recentemente”.

Financiamento para jornal produzido por estudantes

Durante sua fala, a deputada federal Natália Bonavides, ao comentar a questão do individualismo abordada por Jana Sá, afirmou que pode ter quem ache a discussão sobre organização coletiva “meio retrô”.

Fazendo menção à criação, em 2025, do Sindicato das Empresas de Rádio, Televisão, Jornais, Portais e Revistas do RN (Midiacom-RN), Natália classificou o ambiente da comunicação em Natal como “autoritário” e “patrimonialista”, “que faz com que seus jornalistas, ganhando um salário mínimo, às vezes, tenham que assinar matérias numa ditadura editorial que torna absurdamente inacreditável que eles digam que, quando a gente diz que o sistema tem que ser mais plural e diverso, que a gente está querendo censurar”.

Nesse momento, propôs ao público formado por estudantes e professores: “Se os estudantes de comunicação social se juntarem com vocês para uma proposta de jornal, que a Publicidade vai poder promover o jornal, que o pessoal do Audiovisual vai poder fazer também conteúdo e do Jornalismo fazer as matérias, todo mundo aprendendo a diagramar, filmando e fotografando. Se rolar estudantes se organizando para fazer um jornal que seja democrático – ponto –, eu garanto financiamento por emenda”.

“Vocês podem ter certeza que vocês trabalhando nisso, com supervisão dos professores, não tenho dúvida que a qualidade do que vocês vão produzir vai ser melhor do que tudo que está aí”, completou.