Por: Cecília Dantas e Letícia Anjos.
Em busca de resistência e representatividade, a cultura afro-brasileira se sobressai com o samba, ritmo musical que carrega sua força, identidade e expressões culturais, o samba se torna um elemento essencial para a cultura brasileira, mostrando para o mundo sua territorialidade. Esse movimento (O samba) tem crescido cada vez mais, envolvendo as pessoas tanto economicamente como culturalmente.
Alessandro Dozena trata em seu livro “Geografia e Arte” que por meio da arte podemos enxergar o mundo e a sociedade de outra forma, relacionando o inteligível com o sensível, analisando a sociedade não só como ela aparenta ser, mas identificando como o ser reage a cada movimento do universo e como isso se constrói. Dessa forma, podemos encontrar no samba um elemento que se constrói em comunidades para sair do cotidiano e elevar a vida daquelas pessoas.
O samba, além de musicalidade, carrega desde sua origem notas de resistência e celebração da ancestralidade. Em entrevista com Alessandro Dozena, grande nome para a geografia cultural, ele fala que a palavra samba vem do termo “semba”, do iorubá, que quer dizer “umbigada” – movimento presente nas danças de roda afro-brasileiras, marcado pelo encontro de umbigos. “A implantação do samba territorial no Rio Grande do Norte, principalmente em Natal, teria vindo com marinheiros do Rio de Janeiro. Não se sabe ao certo o período, já que foi uma assimilação progressiva; o que se sabe é que o samba também se fez potiguar, através do abraço do povo ao gênero.”
Hoje existe um polo muito forte de samba e pagode no bairro das Rocas, em Natal – forte o suficiente para criar o sentimento de “unir” e “pertencer” no coração dos moradores. Claro que esses sentimentos não são restritos apenas a eles: os movimentos de rodas de samba são capazes de conectar o habitante ao visitante, o conhecedor ao leigo, formando redes de afeto, identidade e memória.
As Rocas, com isso, tornaram-se conhecidas nacionalmente pelo “dizer no pé”, que contagia até quem não sabe exatamente o que isso significa. Mais do que entretenimento, essas expressões do samba reafirmam sua força histórica como símbolo de resistência negra, preservando raízes culturais muitas vezes ameaçadas e reafirmando a representatividade de um povo que encontrou na música um espaço de voz, orgulho e continuidade.
O samba movimenta a economia local, cria elos entre a comunidade, incentiva a conexão com a ancestralidade e, o principal: diverte as pessoas. A espontaneidade de bater o pé no chão motiva a vida e rejuvenesce o espírito.
Toda essa alegria se traduz em admiração – tanta admiração que, agora, o samba também é lei em Natal!
Nas rocas, o samba vira patrimônio
No coração da cidade de Natal, no bairro das Rocas, as segundas-feiras deixam de ser apenas o início de uma longa e cansativa semana de trabalho e tornam-se um ritual cultural, econômico e afetivo regado por samba e alegria. O que começou em março de 2022 como um encontro despretensioso entre músicos exaustos após o fim de semana de trabalho se transformou num movimento reconhecido oficialmente como patrimônio cultural e imaterial da cidade. É ali, onde a riqueza do ritmo e o samba de malandro se misturam e dão luz ao projeto “Segunda de Vagabundo”.

(Foto: Divulgação).
A cena que se vê hoje – inúmeras pessoas reunidas em torno da roda de samba, comerciantes nas calçadas, turistas atravessando a multidão – parece distante das primeiras segundas feiras onde apenas cinco amigos se encontravam para tocar por prazer. Um deles é Carlos Cruz, morador das Rocas e fundador da associação cultural que organiza o evento. Aos 35 anos, Cruz carrega quase duas décadas dedicadas ao samba e pagode. “Eu sempre vivi aqui”, conta. “Quando eu nasci meus pais já moravam nas Rocas. Aprendi a tocar cavaquinho ainda adolescente, entrei em grupos, rodei projetos. Hoje sou músico, violonista, e estou como presidente da Segunda de Vagabundo. Mas tudo aqui começou de um jeito muito simples.”
O nome do projeto não veio por acaso. Ele carrega uma história que simboliza resistência e luta contra estereótipos. Carlos explica que, durante muito tempo, rodas de samba eram reprimidas, vistas como reunião de “desordeiros”. “Chamavam a gente de vagabundo mesmo. Sambista era marginalizado”, conta. Foi justamente essa marca social que o projeto decidiu ressignificar.
O geógrafo, professor, pesquisador e músico apaixonado pelo mundo do samba Alessandro Dozena, também reforça a narrativa de subversão do evento.
“No caso da segunda do vagabundo, ela tem um elemento interessante, que é a resistência. Porque qual é o dia do trabalho, formalmente falando? A segunda-feira. Logo, a roda ser na segunda-feira é de propósito. Então tem esse aspecto da resistência diante de um cotidiano que muitas vezes é repetitivo, é duro, é triste, muito sério, careta. O samba traz essa alegria, essa espontaneidade.”
A transformação pública coincidiu com a evolução do projeto. O que antes era só um momento de descontração passou a atrair olhares do bairro inteiro, e mais tarde não só do bairro como de toda a Natal. A conveniência que hoje serve de ponto de apoio anteriormente nem sequer abria nas segundas – até que na primeira semana o dono decidiu ir ao local só para ceder mesas e cadeiras aos músicos. “Era a folga dele, mas ele foi mesmo assim, ficou lá com a gente. Depois disso virou rotina. Semana após semana.”
Com o tempo, a rotina virou movimento, o movimento virou tradição, a tradição virou lei e patrimônio.

A Segunda de Vagabundo se consolidou como um acontecimento cultural, ponto de encontro e símbolo de pertencimento das Rocas. A publicação no Diário Oficial reconhecendo o projeto como patrimônio cultural de Natal apenas reafirmou o que a comunidade já sabia: a roda de samba era uma parte essencial do aspecto cultural da cidade.
A força do projeto se apoia na comunidade que o abraçou desde o início. “O pessoal das Rocas comprou a ideia rapidinho”, conta Carlos. “A gente fez uma segunda depois da outra e quando viu já tinha turista chegando, gente de longe querendo conhecer. Tem gente que nem veio a Natal ainda mas já coloca a Segunda no roteiro para quando vier”
E assim, o bairro que carrega três escolas de samba e uma longa tradição no gênero musical reafirma sua vocação. Em Natal, o samba não é apenas música: é identidade, economia e memória ancestral.
Relato de Ezequiel França, morador do bairro das Rocas, Bacharelado em geografia pela UFRN, pós graduando do PPGE/UFRN (Programa de Pós Graduação Em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
Ezequiel conta como é sua experiência com o samba, ele nasceu e foi criado no bairro das Rocas, Zona Leste de Natal. A relação dele com o samba e com o bairro acontecem concomitantemente, Ezequiel afirma que com o passar do tempo ele adquire as características de dialogar e aprender com o ritmo, e acabou gostando do samba pois teve muito contato no seu dia a dia em casa, com influência de seus pais.
O círculo familiar de Ezequiel se tornou um dos determinantes para a escolha de sua pesquisa, levando em consideração que seu pai já chegou a cantar o enredo da escola de samba, Malandros do Samba, continuou participando na construção de enredos e movimentações do samba das Rocas, visualizando também sua mãe como uma grande consumidora do samba, um samba mais clássico e de raízes, de tudo que envolve esse ritmo tão rico e representativo, além de ter desfilado em escolas de samba.

O entrevistado fala da importância das rodas de samba no bairro, “Os espaços da roda de samba e o segunda do vagabundo que eu acredito que é o nosso foco aqui ele chega como uma renovação nesse sentido, porque ele agrega um público muito mais que não é apenas do samba, mas que ele está ritmizado, vamos dizer assim pela experiência desse samba. E aí é um samba em suas grandes variáveis, é um samba mais moderno, um samba de estilo mais pagode, é um samba rock, que agrega assim também por dizer diversos grupos de idades diferentes e de ideologias…”
“É um espaço de fato que são importantes para que haja essas manifestações culturais, que alimentam o nosso espírito”, Ezequiel ainda diz que deve ser um interesse do capital fazer a manutenção desses espaços, querendo preservar e um projeto político que vejam a importância desse lugar, sendo um local onde tem toda uma troca não só sociocultural, mas também monetária.
“O samba tem esse papel muito importante, nos lembrarmos em relação a essa composição racial e esse traço étnico africano dos quais nós vamos produzindo a partir dele e criando essas novas roupagens, adquirindo novos elementos também, mas que eles estão ali reforçando uma continuidade, vamos dizer assim, de uma cultura que vem sendo historicamente aniquilada dentro de um processo de colonização.”
Como estudante de geografia, Ezequiel faz reflexões que fortalece cada vez mais seu conhecimento acadêmico, indo além do pessoal, “Por esse motivo fui fazendo várias reflexões que dizem sobre como aquele espaço é democratizado, redemocratizado, como ele se expande intramunicipalmente e depois extrapola isso, na realidade intra dentro do bairro, porque começa uma relação entre as escolas.”
A Segunda do vagabundo para Ezequiel foi uma forma de reflexão acerca do samba no bairro e cidade de Natal, vai além dos limites do bairro, vem sendo um espaço de resistência e também se tornou um patrimônio imaterial a partir da grande relevância, tanto na cultura de Natal quanto na forma turística agora pelo posto.
“Nasce de um movimento orgânico, que nasce eu acredito pela própria demanda dos sambistas que lá moravam e que vão confraternizar com um povo que existe esse traço de contiguidade com o samba por todo o processo histórico que as pessoas tem com o samba e os espaços de samba que aquele bairro faz interface, meio que foi uma reflexão nesse ponto.”
“Acho que ela traz importantes contribuições para se pensar como esse espaço consegue ser amplo, multifacetado e que existe uma polarização porque usa um espectro político para discutir também o que isso significa, mas mesmo que havendo uma polarização ela ainda é muito dispersa e ela encontra bifurcações e muitas experiências diversificadas que vai resultar em aspectos que denotam como esses espaços estão em transformação – metamorfose.”
Existe uma relação harmoniosa do entrevistado com o samba, dentre elas, um de seus objetos de estudo, ele ainda traz um trecho de um dos sambas enredos da escola de samba Balanço do Morro, onde acompanhou com seu pai, “De pé no chão aprendi a ler. De pé no chão arte de sambar. Sou cultura, eu sou arte popular, eu sou Djalma Maranhão”.

Alessandro Dozena, grande nome para a Geografia Cultural, ou melhor… O geógrafo da música.
“Eu sou Alessandro Dozena, professor de geografia, pesquisador e músico. Eu tenho formação em geografia pela Unesp Rio Claro, pós-graduação na USP em São Paulo. Eu sou paulista de nascimento e fui adotado pelo Rio Grande do Norte em 2010. Eu sou músico, formado pela ULM, Amizade Livre de Música, que existiu lá em São Paulo, na capital. Bom, eu sou pesquisador das áreas culturais, geografia cultural, humanista, e estou aqui em Natal desde 2010, na UFRN. Ocupando uma vaga que foi inaugurada, a gente pode dizer, pelo nosso grande estudioso das culturas brasileiras, norte-grandenses, nordestinas, que foi o Câmara Cascudo. Eu, quando passei no vestibular, não tinha ideia desse fato. Descobri depois, assim, conversando com uma secretária. Então, pensem na responsabilidade de continuar uma trajetória de um grande pesquisador, que foi o Câmara Cascudo, um dos grandes de todos os tempos. E como músico, eu sempre trabalhei com música, com arte. Na atualidade, a gente fundou, nesse ano mesmo, 2025, um grupo vocal chamado Potivozes. É um quarteto vocal da Escola de Música da UFRN.”
Dozena traz os relatos de como ele entrou no mundo do samba, quando o samba o acolheu. “Eu comecei a me envolver. Aí eu fiz um projeto de doutorado relacionado às territorialidades do samba em São Paulo. E para chegar nesse tema foram várias situações. Eu fui convidado para ser jurado do Carnaval de São Paulo, essa foi uma situação. Trabalhei como jurado do Carnaval de São Paulo, pude conhecer inclusive figuras. Houve um ano em que a gente fez parte do Troféu Nota 10, por dois anos eu fiz parte. E aí eram pessoas do meio do samba, e o que mais me marcou foi um ano em que eu fui parceiro de trabalho, simplesmente, de Joãozinho 30, que é um dos grandes, senão o maior carnavalês de todos os tempos. Bom, então como jurado eu comecei a visualizar já esse, o que eu chamei no livro A Geografia do Samba, esse mundo do samba. Mas foram várias situações, eu comecei a me envolver em rodas de samba, tocando mesmo, eu toco violão, eu fazia violão de sete cordas e comecei a me envolver com música e aí foi acontecendo esse movimento e aí o samba foi entrando na minha vida”.

Samba como identidade, memória e cultura
A ideia da vida cotidiana está em simbiose com a imaginação artística, isso acontece quando enxergamos a vida pulsando e acontecendo com olhar mais cauteloso, quando percebe-se as variadas formas da arte, e do samba principalmente, se interligando. Assim compreendendo que os horizontes do samba investigam a forma da arte acontecer, junto a teorias de espaço e lugar, que reitera a harmonia do samba em determinadas comunidades, levando em consideração os sentimentos, ideias e visões de mundo, tornando o samba diferente em cada espaço que ele se faz presente e resistente.
Dozena traz em sua entrevista o que o samba, assim como a arte e música, é para ele. “E eu já digo assim, de saída, isso porque eu sou geografia e música. Tudo que eu faço é muito integrado, as pesquisas, quem tem aula comigo nota essa paixão pela cultura em sua perspectiva espacial, mas como músico, pra mim, esse também é um motivo de muita alegria, porque é meio que um complemento, sabe? A gente é o que é. Tem gente que tenta omitir o que é e fica triste, porque a nossa essência é muito evidente. Então, tem gente que gosta de dança, teatro, pintura, literatura, E eu gosto de música, eu sempre fui músico, desde jovem, toquei em banda, depois em orquestra. Eu fiz geografia tocando em orquestra sinfônica. Essa história eu relato em um dos nossos livros chamado Geografia e Música”.]

Canções como, “Meu lugar” de Arlindo Cruz, “Vou festejar” de Beth Carvalho e “Cotidiano” de Chico Buarque, demonstram como acontece com o samba e em rodas de samba em diversas comunidades. Sua resistência em meio aos paradigmas da sociedade, quebrando essas normas, interagindo com o mundo, expondo outros meios de expressão, as quais são símbolos de resistência, “O meu lugar é caminho de Ogum e Iansã, lá tem samba até de manhã, uma ginga em cada andar, o meu lugar é cercado de luta e suor, esperança num mundo melhor e cerveja pra comemorar” (Meu Lugar, Arlindo Cruz) esse trecho destaca-se o diálogo do samba com o corpo, a mente e o público que aprecia o samba, letras como esta só reafirma a ligação do samba com a cultura afro-brasileira, trazendo para o mundo não só um ritmo para consumo de distração e diversão, e sim como símbolo de oportunidades e resistência para uma determinada cultura, reacendendo e permanecendo os traços étnicos-raciais africanos.







