por: Erikledson Pereira.

Há artistas que passam pela televisão. E há aqueles que, de alguma maneira, passam a fazer parte da própria história dela. Laura Cardoso pertence ao segundo grupo.

Aos 98 anos, morreu nesta segunda-feira (17) uma das maiores atrizes da dramaturgia brasileira. Com mais de oito décadas de carreira, Laura Cardoso construiu uma trajetória que atravessou o rádio, o teatro, o cinema e a televisão, acompanhando praticamente toda a evolução da dramaturgia no país. Sua despedida representa a perda de uma artista, mas também o encerramento de uma era.

Laura começou sua carreira ainda jovem, no rádio, antes mesmo de a televisão brasileira se consolidar. Em 1952, chegou à TV Tupi, quando o meio ainda dava seus primeiros passos no país. Desde então, nunca deixou de pertencer às telas. Foram décadas interpretando personagens diferentes, em histórias de diferentes épocas, mas sempre com uma característica em comum, a capacidade de fazer o público acreditar naquela mulher que aparecia diante das câmeras.

É difícil contar a história da televisão brasileira sem, em algum momento, encontrar Laura Cardoso pelo caminho. Ela esteve em novelas que se tornaram parte do imaginário nacional e trabalhou com diferentes gerações de atores, diretores e autores. Mulheres de Areia, A Viagem, Gabriela e Sol Nascente são alguns dos trabalhos que ajudaram a consolidar seu nome entre os grandes da dramaturgia. Ao todo, foram mais de 100 trabalhos ao longo da carreira e mais de 60 novelas. Seu último papel em uma novela foi em A Dona do Pedaço, em 2019.

Mas reduzir Laura aos números seria pequeno diante da dimensão de sua trajetória. Sua carreira atravessou mudanças profundas na televisão, da imagem em preto e branco às transmissões em alta definição, dos grandes estúdios aos novos formatos de produção. Enquanto a tecnologia mudava, a presença de Laura permanecia.

Laura Cardoso tinha uma característica rara, conseguia desaparecer dentro de suas personagens. Não importava se interpretava uma mulher humilde, uma matriarca, uma personagem de humor ou alguém atravessado pelo drama. Havia sempre uma humanidade que fazia com que o público reconhecesse algo familiar nela. Talvez por isso sua presença tenha atravessado gerações. Quem assistiu às primeiras novelas encontrou Laura. Quem cresceu vendo televisão nos anos 1990 também. Quem acompanhou as novelas dos anos 2000 a reconheceu. E até as gerações mais novas tiveram contato com seu trabalho. Ela nunca pertenceu a uma única época.

Mesmo com uma carreira já consagrada, Laura não parecia disposta a abandonar completamente o ofício. Em 2025, participou da tradicional vinheta de fim de ano da TV Globo, em uma de suas últimas aparições públicas. Aos 97 anos, esteve ao lado de outros artistas da emissora e cantou com o elenco. Era uma imagem quase simbólica: uma atriz que havia começado quando a televisão brasileira ainda estava nascendo, décadas depois continuava ali, diante das câmeras. Como se a televisão e Laura tivessem envelhecido juntas.

Laura recebeu alguns dos principais reconhecimentos destinados a artistas brasileiros, entre eles três prêmios Grande Otelo, além de premiações da APCA e do Prêmio Shell. Em 2006, recebeu a Ordem do Mérito Cultural. Ainda assim, talvez sua maior condecoração tenha sido outra, foi permanecer relevante por mais de oito décadas em uma profissão marcada por mudanças constantes.

Nesta terça-feira (18), homenagens começaram a surgir após a confirmação de sua morte. Artistas, autoridades e colegas lembraram a importância da atriz para a cultura brasileira. Laura deixa duas filhas, duas netas e um bisneto, além de uma obra que continuará sendo revisitada por diferentes gerações.

Ficam os personagens. Ficam as cenas. Ficam as fotografias, as entrevistas, os aplausos e as histórias contadas por quem dividiu o palco com ela. Mas fica, principalmente, a memória.

A televisão continuará produzindo novelas. Outros atores ocuparão os estúdios. Novas histórias chegarão às telas. Mas algumas pessoas não são apenas parte do elenco de uma época.

Laura Cardoso foi parte da história. E histórias assim não terminam quando a última cena acaba.