Foto: Jenniffer Oliveira

Um perfil jornalístico produzido por Jenniffer Oliveira

Uma vida construída no sossego do interior e na agitação da sua rotina

Dona de um sorriso fechado, paixão pela cor vermelha e uma simpatia sem igual, Nena não gosta da vida agitada, mas é a frequentadora assídua do forró da melhor idade. Não tem mais grandes sonhos para realizar e espera viver tranquila e em paz, no interior do Rio Grande do Norte. Lagoa de Velhos se tornou sua morada quando a cidade ainda era apenas uma rua, sem adornos, urbanização ou a beleza que hoje atrai visitantes.

Natural de Goiás, chegou ao município ainda muito jovem. Diz que guarda poucas lembranças daquele tempo. Namorou pouco, casou cedo, não concluiu os estudos, mas se orgulha da família que construiu. São oito filhos, três mulheres e cinco homens, hoje espalhados pelo Brasil, desde o filho marinheiro embarcado no Amazonas até a filha que mantém um salão de beleza em Natal. Nenhum mora perto o suficiente para tomar um café no fim da tarde em sua casa, mas a chamada de telefone diária de cada um deles mantém o abraço de mãe presente. A saudade também se faz presente quando lembra do marido, companheiro de cinquenta anos de casamento, falecido cinco meses antes desta conversa. Ainda assim, Dona Nena se considera uma mulher feliz. Diz que quer viver mais do que qualquer outra pessoa no mundo, desde que seja sempre rodeada das pessoas que conhece e saindo muito de casa.

O reencontro com a escola

Conheci Dona Nena durante minha passagem por Lagoa de Velhos com o projeto Trilhas Potiguares. Não sei exatamente o que despertou minha atenção. Talvez fosse vê-la, aos 67 anos, sentada em uma sala de aula com tanta vontade de aprender. Talvez tenha sido sua participação entusiasmada em uma das oficinas do projeto realizada com os estudantes da EJA, do qual faz parte, ou ainda o caderno preenchido com anotações e colagens de atividades escolares. Alguma coisa nela me chamou a atenção e senti que sua história merecia ser contada.

Ela voltou a estudar pouco depois da morte do marido. Queria ocupar o tempo com algo que lhe fizesse bem e encontrou na escola um novo sentido para os dias. A rotina de estudos, os encontros com os colegas e as conversas diárias transformaram o luto em companhia. “Foi a melhor coisa que fiz”, diz ela. Fora da sala de aula, também faz questão de frequentar o forró da terceira idade em Lagoa de Velhos, onde é sócia, e encontra amigos e cultiva as pequenas alegrias que dão leveza à sua vida todo sábado das 19h às 23h.

Memórias do passado

As lembranças da infância também permanecem vivas. Recorda o trabalho na roça ao lado do pai, plantando e colhendo algodão, feijão e milho. Lembra ainda da criação rígida, marcada pela severidade dos pais. Entre risos, diz que tudo isso ficou para trás quando cresceu e formou sua própria família.

A relação com os estudos sempre foi interrompida pelas circunstâncias da vida. Na infância, cursou apenas até a 2ª série. Anos depois, passou pelo MOBRAL e, atualmente, frequenta a 4ª série da EJA. Com sinceridade e bom humor, admite que é “meio bruta” para matemática, mas afirma que o mais importante é estar na escola. Para ela, aquele espaço representa a convivência, amizade e acolhimento. “Todo mundo se conhece, é como uma família.” Seu olhar não mentia nem um pouco.

Uma cidade que também mudou

Enquanto conversávamos em um banco da praça em frente ao auditório da cidade, duas de suas amigas se aproximaram. Logo surgiram histórias bem-humoradas sobre a Lagoa de Velhos de antigamente: o tempo em que os animais circulavam livremente pelas ruas e até o caso de um burro que atropelou uma moradora cega, quebrando-lhe o braço. Entre uma risada e outra, Dona Nena reconhece o quanto a cidade mudou. As ruas escuras e sem estrutura deram lugar a um município limpo, organizado e visitado por pessoas que chegam para conhecer a lagoa e o Parque Mandacaru. É a cidade que ela escolheu viver e não deseja nunca ir embora.

Leveza para seguir em frente

Quando pergunto se pensa em se casar novamente ou até mesmo fazer uma faculdade, a resposta vem acompanhada de uma gargalhada. Ela descarta as duas possibilidades sem hesitar. Prefere continuar com sua autonomia, aproveitar a companhia das amigas e seguir vivendo com a leveza que demonstra em cada resposta.

Ao fim da conversa, deixa um conselho para quem é mais jovem. Pede que ninguém tenha pressa para casar ou ter filhos. Defende que a juventude deve ser aproveitada para estudar, viver experiências e construir caminhos antes de tomar decisões que mudam a vida.

A felicidade mora nas pequenas coisas

Talvez Dona Nena nunca tenha imaginado que sua história pudesse interessar a alguém de fora. Mas, em uma cidade pequena, entre um caderno cheio de anotações, um banco de praça e um sorriso fácil, ela mostra que existem vidas extraordinárias justamente na simplicidade. Afinal, há quem passe a vida inteira procurando grandes feitos, enquanto descobre que a felicidade pode morar nas pequenas alegrias de todos os dias. Ela demonstra sua timidez quando recebe elogios sobre ser uma mulher bonita e inteligente, seu riso tímido aparece entre nós e vi que além das marcas duras que a vida lhe deixou, ela parecia também precisar de admiração.