Por Jefferson Rosas da Silva

O Governo do Estado do Rio Grande do Norte oficializou o reconhecimento das “40 Horas de Angicos” como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado. A medida busca visa incentivar pesquisas e a divulgação de referências históricas e culturais do projeto, além de preservar a memória coletiva dos participantes.

O anúncio foi feito no dia 27 de outubro de 2026, pela governadora do Estado, Fátima Bezerra, por meio do Diário Oficial do Estado, após a sanção da Lei nº 12.932. O reconhecimento da importância do papel histórico de Angicos na educação brasileira e potiguar abre espaço para o debate sobre a transformação social por meio de um processo educativo e democrático. Em uma de suas redes sociais, no dia 29 de outubro de 2026, a governadora destacou: “Como professora, carrego comigo a certeza de que a educação transforma vidas e abre caminhos para um futuro com mais oportunidades, dignidade e justiça social.”

Com o seu método pioneiro de ensino, em 1963, Paulo Freire conseguiu alfabetizar aproximadamente 300 adultos em 40 horas, na cidade de Angicos, no interior do Rio Grande do Norte. Na época, a população da cidade era de 9 mil habitantes, com alto índice de pobreza. Embora não haja dados estatísticos de fontes oficiais do IBGE, relatórios socioeconômicos e os diagnósticos da equipe de Paulo Freire calcularam que em torno de 75% da população vivia em extrema pobreza, e cerca de 70% dos jovens e adultos não eram alfabetizados. Além disso, o município de Angicos também apresentava a maior taxa de analfabetismo do estado e uma das maiores do Brasil, sendo esse um dos motivos pelos quais a cidade foi escolhida para o projeto de Paulo Freire.

No que consiste o método de Paulo Freire na prática?

O método de alfabetização de Paulo Freire se baseava na utilização de palavras presentes no cotidiano dos estudantes que participaram do projeto. A maior parte dos educandos que participaram da iniciativa em Angicos era composta por trabalhadores rurais e camponeses que não tinham acesso à educação.

Na prática, o método consiste em três etapas: investigação, tematização e problematização. Na primeira etapa, a de investigação, busca-se compreender o universo vocabular do aluno e da sociedade na qual ele está inserido.

Na segunda etapa, a de tematização, busca-se codificar e decodificar as palavras utilizadas no cotidiano dos educandos, atribuindo-lhes um sentido social e prático. Por exemplo, a palavra “trabalhador”, acompanhada da imagem de uma pessoa trabalhando no campo, permitia que os estudantes associassem o termo à figura do trabalhador rural, uma realidade familiar para eles.

Já na terceira etapa, a de problematização, era necessário que o aluno compreendesse o significado das palavras para além daquilo que era apresentado nas projeções nas paredes e nos cartazes. O objetivo era estimular o pensamento crítico, permitindo que os estudantes relacionassem os significados das palavras às suas próprias experiências e à realidade social.

Onde aconteciam as aulas?

As aulas aconteciam em casas cedidas pelos moradores e também em prédios públicos, todas as noites, durante dois meses. Em vez de utilizar o método tradicional de ensino, Paulo Freire aproveitou a bagagem de vida, a realidade social e o próprio vocabulário dos trabalhadores.

Qual foi o impacto do Golpe de 1964 no projeto de Paulo Freire em Angicos?

O sucesso da experiência de Paulo Freire em Angicos teve tamanha repercussão que João Goulart, presidente do Brasil em 1963, buscou replicar o método de ensino em todo o país. “Jango”, como era conhecido o presidente na época, chegou a visitar Angicos durante a cerimônia de encerramento das aulas, em 2 de abril de 1963. Havia a expectativa de que, em maio de 1964, fosse lançado um plano nacional de alfabetização, inspirado no método de ensino de Paulo Freire. A previsão era alfabetizar mais de 1 milhão de pessoas naquele ano.

Entretanto, os planos foram interrompidos pela ditadura militar. A pesquisadora Mariana Parise Brandalise, da Universidade de Caxias do Sul, revelou uma conversa entre o general Humberto Castelo Branco e o jornalista Calazans Fernandes, então secretário de Educação do Rio Grande do Norte, sobre a experiência de Paulo Freire em Angicos. Castelo Branco teria dito: “Jovem, você está engordando cascavéis por essas terras”. Calazans Fernandes respondeu imediatamente: “Depende de qual calcanhar elas mordem, general”.

Os militares demonstravam grande preocupação com a alfabetização dos trabalhadores, pois o acesso à educação poderia ampliar a resistência e a luta por direitos até então negados a essa parcela da população. Um dos direitos assegurados aos alfabetizados era o direito ao voto, uma vez que, até 1985, pessoas que não sabiam ler e escrever eram impedidas de votar. A experiência das “40 Horas de Angicos” representou uma ruptura com a realidade da época, sendo vista como uma afronta aos privilégios dos grandes latifundiários do Nordeste brasileiro.

Com o Golpe Militar de 1964, Freire tornou-se um dos educadores perseguidos pelo regime militar. O clima de tensão e medo passou a fazer parte da realidade dos estudantes, uma vez que o educador era alvo de acusações de que seu modelo de ensino representava uma experiência comunista.

Em uma entrevista ao Brasil de Fato, em 2024, um dos alunos de Paulo Freire relatou: “Disseram que iam enviar pessoas, autoridades, para queimar os cadernos e até mesmo prendê-lo [Freire]. Foi uma grande revolução na cidade”, recorda o ex-aluno Valdice, sobre o clima que prevalecia entre os participantes quando se espalhou a notícia de que Freire poderia ser preso pela ditadura.

O reconhecimento da experiência de Paulo Freire na cidade de Angicos como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio Grande do Norte valoriza o legado deixado pelo educador em terras potiguares e reafirma o compromisso do governo com a educação das futuras gerações, além de contribuir para a preservação da memória histórica e cultural.