
Um perfil jornalístico produzido por: Andressa Camilo, Cecília Dantas, Gilvictor Nascimento e Letícia Anjos
Pedir para um entrevistado se descrever em uma palavra na maioria das vezes é um clichê, e estamos sempre aguardando uma resposta mais clichê ainda. Algo do tipo “confiante”, “inspirador”, “determinado”, seguido de um discurso para complementar a escolha da palavra. “Inseguro”, foi o que Italo respondeu, e simplesmente isso. Uma palavra que diante da infinidade de termos que podem tentar definir um artista, revela a humanidade e sensibilidade de um jovem processo de aprendizado contínuo com seus desafios, como ele mesmo verbalizou: “ainda estou aprendendo e eu vou continuar aprendendo até o fim da minha vida”.
Italo nasceu no município de São José de Mipibu e mora no interior de Goianinha/RN há muito tempo. Aos 21 anos, como aluno do curso de Produção Cultural pelo IFRN, ele enfatiza que seu interesse pela arte iniciou ainda na infância. Desde criança seus olhos brilhavam para cultura e pelo teatro, sobretudo pela teledramaturgia. Com o olhar focado no horizonte à sua frente, como se naquele momento estivesse assistindo e revisitando uma cena da sua própria vida no passado, ele compartilha suas lembranças de menino, quando todos em casa sentavam à noite para assistir novelas por influência do seu pai. Naquelas noites, enquanto assistiam, ele se perguntava como funcionava tudo aquilo por trás das telas. Parte da sua infância, contudo, não guarda memórias tão afetivas assim. Ele conta que cresceu em uma família disfuncional de sete irmãos e seu pai, sua casa estava sempre cheia e não era um lar de muito afeto já que eles não tinham o hábito de falar o que sentiam. Italo revela que um ponto marcante desse período foi a ausência de sua mãe, que era divorciada do pai e por isso mantinham pouco contato, demonstrando que apesar da quantidade de pessoas ali, ainda existia um vazio dentro de casa pela falta da figura materna.
Ele nasceu em uma família escolhida para cuidá-lo e não para abraçá-lo, faltou o abraço, faltou o carinho e a leveza que um lar poderia trazer na vida de uma criança. Nasceu e cresceu da vontade de ser alguém diferente e de se mostrar ao mundo. Oito lembra o símbolo do infinito, oito nos lembra a maravilha que faltou na criação do mundo, Italo foi o Oito da sua família, o oitavo a nascer e se estabelecer em uma família no interior do estado em Goianinha.
Italo Carlos da Silva, artisticamente conhecido por: Oito, não foi um nome escolhido por ele, Oito o escolheu, Oito viria a ser a parte que faltava no mundo, a alma artística que iria se estabelecer em algo ou alguém e nasceu. “Ito foi pensado desde sempre para ser nome artístico, mas eu não gostava achava meio sei lá, mas lembrei que na minha infância me chamavam de: o Ito, e também eu sou o oitavo filho da minha mãe”.
Ter uma grande perspectiva sobre o futuro se torna dificultoso, doloroso e sombrio quando se vem de um lugar onde a sua cultura, vida e realidade são postas a jogo. Onde a arte, seu ser, sua performance são apagadas por pequenos preconceitos impostos a sua raça. Construir sua identidade, cultivar o seu ser e finalmente se descobrir nesse processo acaba sendo ainda mais difícil. Ele chega com uma camisa branca escrita “antissocial club” que talvez de certa forma antecipe o decorrer da sua vivência, uma calça jeans de lavagem clara e o cabelo que ameaça a ondular. Ao ser questionado sobre sua identidade, ele torce a boca, abaixa os olhos e ri. Ri despretensiosamente, porque acredita que não sabe como responder. Mas então ele responde.
O sentimento carregado na voz suave do artista evidencia que não é nada fácil ser um menino preto LGBT na periferia de um interior do Rio Grande do Norte. Italo ressalta que as coisas parecem ser mais difíceis para ele quando comparado a um homem branco e heterossexual, que tem o conforto para correr sem amarras. Na realidade do jovem artista, a sensação de julgamento e dúvida do seu potencial pela sociedade está sempre presente em seu cotidiano, assim como a intuição de que tudo ao seu redor é limitado. Apesar disso, Italo quebra os paradigmas impostos pelo sistema ao se tornar a primeira pessoa da sua família a chegar à conclusão do ensino médio e ao ensino superior, mesmo que a vida tenha sido dura o suficiente para tentar lhe convencer que nasceu predestinado ao mesmo futuro que suas gerações passadas, que perpetuou até os seus irmãos.
Ao ser questionado sobre apoio e inspiração, Italo relembra situações familiares, afirma enxergar esse lugar sendo ocupado por sua família, embora o cenário nem sempre tenha sido esse. Ele acrescenta dizendo o nome de outra pessoa. O seu pilar principalmente de inspiração surge da docência, seu professor de teatro Itamar Barbosa. Itamar sempre foi mais do que uma pessoa comum , atraído pela arte, pela cultura e pelo olhar cineasta, ele surge também de Goianinha, com sonhos e anseios semelhantes, ele se viu nos olhos de Italo, como se tivesse voltado ao passado. Para mais que suas semelhanças étnicas ou regionais, ambos surgem como espelho um do outro.
É revelado por ele que Itamar o incentivou a buscar a faculdade, o curso superior, e que lhe abriu portas no mundo da atuação e da dramaturgia. Foi a partir de Itamar que Italo conseguiu esse incentivo. Mas a vida costuma ter reviravoltas inesperadas, devido aos conflitos familiares e questões pessoais, o artista relata que acabou enfrentando a depressão e ele diz “Por um tempo, era impossível viver […] vivia a base de remédios, psiquiatra, mais de um ano nesse processo”. Foram tempos difíceis, Italo recorda enquanto leva uma mão ao queixo e a outra ao seu braço, como se buscasse essas memórias enquanto se mantém seguro, em conforto.
Desde o ápice da doença, ele não almejava um grande futuro com grandes expectativas, não esperava por dias melhores e nem por grandes conquistas, mas mesmo assim continuou, continuou por amor. As amizades colhidas em sua trajetória o inspiraram a continuar, o seu professor Itamar, que ajudou no seu desenvolvimento e processo de cura. Italo leva a mão ao peito e sorri antes de mencionar o namorado, Gilvictor Nascimento. O gesto parece carregar um significado especial. Ao falar sobre ele, o artista conta que esse apoio foi fundamental para enfrentar os desafios que marcaram sua trajetória.
Para o professor Itamar Barbosa, Italo se destaca pela sua capacidade em transformar suas experiências e emoções em arte, a primeira impressão que teve foi a de alguém disponível para a arte, interessado em aprender e ocupar aquele espaço. Com o tempo, porém, percebeu uma transformação. Se antes o jovem artista era mais contido e carregava inseguranças comuns a quem está começando, aos poucos passou a demonstrar mais confiança em cena e maior compromisso com o próprio fazer artístico.
Para o professor, uma das características mais marcantes de Italo é a seriedade com que encara o trabalho, aliada a uma curiosidade constante e a um entusiasmo genuíno pela arte. “Ele me pede referências, me chama para conversar sobre arte e sobre possíveis caminhos”, conta. Mais do que um aluno, Ita afirma enxergá-lo como um colega de profissão, alguém que divide com ele o mesmo interesse pela criação artística e que conquistou seu respeito como artista.
Entre as experiências que marcaram sua trajetória artística, uma se destaca de forma especial: sua participação no espetáculo Lágrimas de Narciso, montado pelo Grupo Auê. Foi nesse trabalho que Oito encontrou um espaço para transformar vivências pessoais em expressão artística, levando para a cena reflexões sobre identidade, pertencimento e questões raciais que atravessam sua história. Segundo seu professor, a performance revelava muito de quem ele é, unindo sensibilidade, denúncia e acolhimento em uma mesma construção poética. Ao ocupar o palco, Oito não apenas interpretava um personagem, mas também compartilhava fragmentos de si, convertendo experiências individuais em uma narrativa capaz de tocar o público. A cena tornou-se um marco em seu desenvolvimento como artista, evidenciando a maturidade criativa de alguém que encontrou na arte uma forma de compreender a si mesmo e dialogar com o mundo ao seu redor.
Falar sobre o sentimento por trás de Oito é, inevitavelmente, falar sobre Italo. Italo cresce numa família disfuncional com uma casa cheia, poucas expectativas e uma vontade enorme de ser algo, deixar algo. Desde cedo, carrega consigo a sensação de que precisa construir um caminho diferente. Junto à fome pela tão procurada satisfação pessoal, também surge o sentimento de responsabilidade, de provação. Provar aos seus pais, à sua família que investiu nele apesar de suas desavenças. O sentimento de responsabilidade que só aqueles que percorrem um longo caminho de baixo sentem. A necessidade de se provar sai do artista e percorre a pessoa de Italo.
Ele se descreve como inseguro. Talvez por carregar esse peso enorme de ser a esperança de sua família. Ou talvez não. De toda forma, a palavra inseguro pode até se aplicar a como ele se sente em relação a si mesmo. Mas seu mentor, a pessoa que viu nele a chama de um artista com potencial infinito, o descreve como nada menos que resiliente.
Aquela resiliência forçada, que se constrói na marra, na vivência. Uma resiliência que nasce mais da necessidade do que da escolha. No final, parece que ser inseguro o levou a algum lugar. Afinal, ele forçou uma mudança nos parâmetros esperados de sua família. Um artista vindo de uma família sem qualquer artista. Resiliente e corajoso. Essas palavras, talvez, o descrevam melhor. Italo não é só o oitavo filho da sua mãe, Italo é o artista que o mundo precisava, é e sempre será uma infinitude de coisas, o que quiser ser, Oito não é só seu nome artístico, Oito simboliza a imensidão e o infinito do que ele é e pode alcançar.





