Por: Sebastião Albano1
Se para os brasileños a Argentina é considerado um país cujo povo é muito extrovertido, os argentinos também consideram o Brasil um país extrovertido. As simetrias deveriam seguir para falar de bom cinema embora cumpra seguir certa hierarquia para iniciarmos nosso caminho de conhecimento pelas diferenças. Ontem, 15 de abril, assisti a Orgullo y prejuicio (Orgulho e preconceito, Matias Szulanski, 2026) na sala Leopoldo Lugones, no décimo andar do prédio que abriga o Teatro San Martín, na avenida Corrientes. O filme inaugurou para um grupo muito seleto o Festival Internacional de Cine Independiente de Buenos Aires (BAFICI), que hoje, 16 de abril, deslancharia para o público. Os cinéfilos sabem que parte da importante película Fantasma (Lisandro Alonso, 2006) rodou-se nesse espaço bem aclimatado e um pouco recluso. Mas, se Orgullo y prejuicio também tenha escassos movimentos de câmera (se algum) à diferença dos contemplativos longas de Alonso, Szulanski exercita o mais democrático dos gêneros, a comédia de costumes contemporâneos. De acordo com Szulanski e com o diretor do festival, Javier Porta Fouz, o filme é mesmo despretensioso. Hoje começou parte das mostras e a competição oficial.
São 327 películas, 112 estreias, nove sedes e entre os filmes brasileiros nesta edição estão Quando o Brasil era moderno (Fabiano Maciel, 2025), exibido hoje, A paixão segundo G.H.B (Gustavo Vinagre e Vinicius Couto, 2026) e Nosso segredo (Grace Passô, 2026), entre outros. Sendo a embaixada do Brasil um dos apoiadores do evento, por intermédio do Instituto Guimarães Rosa (IGR), a lacuna em iniciativas de distribuição oficial dos cinemas da Argentina no Brasil e vice-versa é, ao menos, suavizada por festivais como o BAFICI, conforme o mesmo Fouz indicou, uma oportunidade de atualização e diversificação do espectador bonoarense. Creio que o IGR também cumpre a função de estabilizar essas relações.
Ao longo de quase duas semanas cerca de 50 nacionalidades passarão nas telas da cidade, uma das principais capitais cultuais da América Latina, e estarão sob o escrutínio de um público que não se furta em aplaudir ainda que pareça não se manifestar acerca de suas desafeições, contentando-se com um silêncio imperioso. Foi assim, por exemplo, num filme como o Eight Bridges (James Benning, 2026), em que os signos de aprovação foram nítidos, e o contrário aconteceu com a morbidamente limpa El desencanto (Jaime Chavarri, 1976), projetada no Cinépolis Recoleta e integrante da mostra “Resgates”, cujo merecimento ao final da seção foi um silêncio de reprovação pelo conteúdo, a vida do poeta falangista (pertence aos apoiadores de Francisco Franco), Leopoldo Panero, e uma vontade de aplauso pela forma.
A mostra competitiva internacional iniciou com Hangar Rojo (Juan Pablo Sallato) enquanto a mostra nacional argentina com Plata o mierda (Toia Bonino e Marcos Joubert). Nos próximos dias 13 filmes disputarão o galardão estrangeiro, entre eles Nosso segredo. Cumpre comentar que na cidade portenha ainda, fora do festival, estão passando dois filmes latino-americanos de grande influência social, o argentino Nuestra tierra (Nossa terra, Lucrecia Martel, 2025), em que a consagrada diretora de Salta se exime de autoria e porta seus materiais com razão e transparência em prol da causa Chuchasgata, uma etnia em luta por território, e a paraguaia Bajo las banderas, el sol (Juanjo Pereira, 2025), seguindo uma tendência documental em que ética e estética se combinam legitamamente, firmando uma breve tradição que conta com Ejercicios de memoria (Paz Encina, 2016) e Veladoras (Paz Encina, 2020). Essa efervecência promete aumentar ao longo dos próximos dias.
1 Sebastião Albano é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e atualmente trabalha em seu pós-doutorado em Portugal, no México e na Argentina. Está em Buenos Aires cobrindo o BAFICI (Festival de Cinema Independente de Buenos Aires, versão XXVII).







