Glaucia apresentando sua metodologia método Taylor Swift “- Natal -RN (Foto: retirada da Web, direitos reservados à Glaucia.

Por: Gilvictor Silva do Nascimento, Andressa Camilo, Letícia Anjos e Cecília Dantas.

A bióloga, professora e doutoranda pela UFRN (Universidade federal do Rio Grande do Norte) Gláucia Silva, teve sua notoriedade alavancada no ano de 2023 após criar um método de estudo inovador chamado ‘Método Taylor Swift’, publicado na renomada revista acadêmica anual de Oxford, “Annals of Botany”. No entanto, sua pesquisa passou a ser alvo de plágio por um grupo de alunos da Universidad Miguel Hernández. Ao fazer uma análise de conteúdo, comparando as metodologias, Gláucia detectou uma correspondência média de material copiado entre o seu artigo e o artigo da universidade espanhola.

O grande sucesso de Gláucia abriu-lhe grandes portas e visibilidade, mas o que era pra ser inicialmente enriquecedor para a pesquisadora se tornou um pesadelo quando a mesma descobriu que seu projeto, A ideia começou a ser trabalha no ano de 2020, tendo sua aplicação no ano de 2021 e ficando reconhecida nacionalmente a partir de 2024, estaria sendo supostamente plagiada por um docente de uma universidade espanhola chamada Universidad Miguel Hernández.

Entrevista com a Swiftie que fez sucesso na botânica

Durante entrevista com a professora de Biologia, Gláucia Silva, ela contou como surgiu a ideia de realizar o projeto, em meio a dificuldades da pandemia, onde estar em casa e ter que estudar era assustador e desafiador, ela teria que dar início a uma turma onde iria ensinar botânica, sabendo que os alunos não gostavam do assunto teve que se reinventar, não só com os desafios pandêmicos. Gláucia então, após perceber que os videoclipes da cantora Taylor Swift, dialogam com os assuntos de botânica, teve a ideia e inspiração para dar início ao seu projeto no ano de 2020.

Gláucia explicou seus métodos usados em salas de aula, com muitas pesquisas e estudos, ela percebeu em diversos álbuns da Taylor, que a mesma fazia o uso científico da botânica. A inspiração na cantora e a procura de algo para tornar suas aulas interessantes fez Gláucia dar início ao trabalho.

Ao explicar o método, Gláucia afirma que os alunos não perceberam o uso da botânica nos videoclipes pois “existe a incapacidade do ser humano perceber as plantas no ambiente, reconhecer seus aspectos morfológicos, as características específicas das plantas e reconhecer sua importância para a biosfera” afirma. Cientificamente chamado de “impercepção botânica”.

Assim, no início da aplicação do seu método de ensino, os alunos da bióloga não compreendiam a relação entre Swift e botânica, e muitos tinham aversão tanto pelo conteúdo quanto pela diva pop. Mas com o andamento das aulas, a cientista passou a constatar os resultados da sua metodologia através do crescente engajamento dos adolescentes com a disciplina. Gláucia acrescenta que escolheu a artista Taylor Swift e suas canções como referência na aplicação do método pois há uma singularidade nas obras da cantora que a diferencia dos demais artistas.

A cientista ressalta que a discografia da Miss Americana conversa com a botânica de uma forma muito especial, pois suas músicas, ao longo dos anos, evidenciaram que a cantora possui uma relação particular com plantas, de modo que os acadêmicos da área ao assistirem os videoclipes reproduzidos em sala de aula, percebem que os elementos botânicos não foram simplesmente incluídos nas cenas (ou nas letras) de qualquer forma, mas reforça que o conhecimento científico se faz presente por trás do conteúdo audiovisual: “ela faz, e faz bem feito”, diz a bióloga: “ela evidencia a botânica com músicas como Willow e Lavander Haze. Ela leva [a botânica] para frente, enquanto outros colocam para trás”.

Além do sucesso em sala de aula, a bióloga levou seu estudo para além das escolas, fez sucesso mundialmente, o que lhe proporcionou experiências e conquistas significativas, como sua apresentação no Congresso Internacional de Botânica em Madrid no ano de 2024.

Quando a cultura pop se mistura com biologia

O ‘Método Taylor Swift’ de Gláucia surge da preocupação da bióloga com o desagrado dos estudantes com o estudo botânico, possivelmente graças à complexidade do conteúdo, métodos tradicionais de ensino e falta de conexão com a vida dos estudantes. Em seu artigo científico sobre a modalidade de ensino, ela cita o conceito de Plant Awareness Disparity (PAD), que explica a dificuldade das pessoas em perceber e valorizar algumas espécimes, e que esse fenômeno é prejudicial à pesquisa científica de plantas numa escala geral. Por isso, surge a iniciativa com o objetivo de conectar os interesses dos alunos e o conteúdo ministrado em sala de aula.

O método consiste em analisar as referências às plantas nas imagens e nas letras. Em cada aula é usado um videoclipe com elementos botânicos relacionados ao direcionamento da aula. Na dinâmica, alguns dos videoclipes selecionados foram da música “Cardigan”, usado para para introduzir briófitas e pteridófitas e levantar questionamentos científicos aos alunos; “Out of the woods” que possibilita um estudo sobre as gimnospermas, pois mostra a cantora numa floresta densa sem flores e frutos; e “Willow” que traz a tona as angiospermas, em vista que a tradução literal para o nome da música é “salgueiro”.

Gláucia criou a método ao mesclar suas duas paixões em algo inovador para a área do conhecimento: sua admiração pela cantora internacional Taylor Swift e seu amor por botânica. A professora inovou o ramo da educação unificando esses dois assuntos até então tão destoantes. O seu método de estudo consiste em analisar vídeo clipes e letras de músicas, correlacionando cultura popular e botânica em suas aulas.

Da universidade ao reconhecimento internacional: os fatores que impulsionaram a projeção do método.

A trajetória de consolidação do método também foi marcada por inseguranças iniciais e pelo receio de apresentá-lo a especialistas da própria área. Segundo a pesquisadora, levar a proposta para um público internacional de botânicos parecia um desafio ainda maior do que apresentá-la para pessoas de fora da área. “Uma coisa é apresentar um método botânico para quem não é botânico. Outra é levar para doutores, pesquisadores consolidados do mundo inteiro”, explica. Mesmo assim, decidiu submeter o trabalho a um congresso internacional, sem grandes expectativas. “Eu pensava: o ‘não’ eu já tenho, então vou arriscar”, relembra. O resultado, no entanto, superou as previsões: o projeto foi selecionado entre mais de 1.500 propostas para uma apresentação oral em um simpósio voltado a métodos de ensino. Durante a palestra, realizada em um auditório com mais de 500 pessoas, a recepção do público surpreendeu a pesquisadora. “Quando terminei, o auditório inteiro levantou e começou a aplaudir”, conta. O reconhecimento por parte de especialistas estrangeiros foi, segundo ela, um momento decisivo para validar a proposta pedagógica, que combina botânica com referências artísticas e culturais. “Foi ali que percebi que o método realmente fazia sentido para outras pessoas”, afirma.

Denúncia de uso indevido do método: como surgiu a suspeita de reprodução sem o devido reconhecimento.

A denúncia de possível apropriação indevida do método surgiu de forma inesperada, durante uma busca rotineira feita pela própria pesquisadora na internet. Segundo ela, é comum pesquisar periodicamente a associação entre botânica e a cantora que inspira a metodologia para acompanhar menções ao trabalho. “Às vezes eu coloco ‘Taylor Swift e botânica’ no Google para ver o que aparece”, relata. Foi em uma dessas buscas, realizada em um domingo (01/08), que começaram a surgir links e entrevistas que ela não reconhecia. Ao acessar os conteúdos, percebeu que diferentes textos atribuíram a criação da metodologia a um professor de uma universidade europeia. “Cada matéria que eu lia era como um tapa na cara, porque todas falavam dele como criador do método”, afirma.

A pesquisadora ressalta que o problema não está no uso da proposta pedagógica, já que a ciência pressupõe replicação de métodos, mas sim na ausência de crédito ao trabalho original. “A metodologia existe para ser utilizada e adaptada, mas o básico da ciência é citar quem desenvolveu a ideia”, explica. Ao analisar o artigo acadêmico que deu origem à divulgação, ela afirma ter encontrado trechos que, segundo sua avaliação, reproduzem conceitos centrais da proposta sem a devida atribuição. O receio, diz, é que a circulação dessas publicações possa gerar confusão sobre a autoria da metodologia e impactar diretamente seu reconhecimento acadêmico. “Quando uma instituição divulga aquilo como uma inovação desenvolvida por eles, isso cria uma narrativa que pode apagar anos de trabalho”, conclui.

O plágio de conteúdos e artigos brasileiros por parte de estrangeiros têm se tornado uma discussão crescente durante os últimos anos, refletindo um fenômeno de crise da integridade acadêmica. O plágio de artigos científicos brasileiros é uma face do chamado “extrativismo epistêmico” – que é a apropriação de conhecimentos do Sul Global por estrangeiros. A injustiça exposta pelo caso trouxe à tona a necessidade de conscientização desse assunto, responsável por perpetuar uma hierarquia no conhecimento mundial.