Compondo a mesa, da esquerda para a direita: Bruna Camilo, Brisa Bracchi, Gabi Madruga (mediadora), Tica Moreno e Isolda Dantas (Foto: assessoria da vereadora Brisa Bracchi/cedida)

Por: Vicente Cabral.

Realizado na noite da última quarta-feira (06), no auditório do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o seminário Feminismo Urgente debateu “Como se organizam big techs, red pill e machosfera na exploração e ódio às mulheres”. O evento teve como palestrantes as sociólogas e pesquisadoras Bruna Camilo, 33, de Minas Gerais, e Tica Moreno, 41, de São Paulo.

Doutora em Ciências Sociais, Bruna afirmou que “A misoginia não é algo ocasional e não é opinião. Misoginia é construção política”. Com base em sua tese de doutorado, a socióloga apontou que a exploração do ódio às mulheres nas comunidades digitais é resultado de três fatores: a misoginia como mecanismo de controle social, a masculinidade como construção social e o ressentimento masculino, pela crise no padrão de masculinidade em razão do avanço dos direitos das mulheres, como forma de organização política.

De acordo com ela, o movimento red pill tem ganhado cada vez mais destaque por sua “lógica vendável”, observada em cursos e discursos de influenciadores, coachs e religiosos. Para Bruna, o homem “começa a ver dentro desses grupos a justificativa do problema da vida dele” nas mulheres que não são submissas. 

“Quando você absorve, através de meme, de humor, de curso, toda essa misoginia, você acha normal. E aí vai ser normal matar uma mulher”, acrescentou, lembrando casos de repercussão nacional, como o estupro coletivo contra uma menina de 17 anos, em Copacabana, no início deste ano.

Ao expor como os algoritmos das redes sociais, via entrega e engajamento de conteúdos, amplificam e mercantilizam a misoginia e a radicalização online, especialmente para os mais jovens, concluiu: “A gente tem que discutir, para além da criminalização da misoginia, dos agressores, as big techs. São elas que permitem a produção desse conteúdo. São elas que entregam nas nossas mãos todo tipo de violência”.

Evento ocorreu no auditório do Departamento de Comunicação Social da UFRN (Foto: assessoria da vereadora Brisa Bracchi/cedida)

O papel das big techs

Tica Moreno, doutora em Sociologia, reforçou a atuação das big techs no cenário debatido. “Cada coisinha que a gente faz é coleta e processamento de dados, é personalização. E eles fazem esse perfil nosso para fazer o quê? Ganhar dinheiro. Usam os nossos dados para vender conteúdo, vender o que parece que é o que a gente quer. E a gente começa a querer umas coisas que a gente nunca nem sabia que ia querer. É isso que está também atrás dessa dinâmica dos conteúdos misóginos na internet”, disse.

Citando o PL 6194/2025, de autoria da deputada federal Ana Pimentel (PT/MG), o qual estabelece normas para o enfrentamento à misoginia em plataformas digitais no Brasil, Tica destacou que o enfrentamento à misoginia não pode ser feito apenas punindo indivíduos, mas “criando mecanismos para que as big techs sejam responsabilizadas por isso”.

“Quando a gente está falando sobre enfrentar a misoginia na internet, a gente está encontrando um caminho para enfrentar a violência e a misoginia, mas também para enfrentar o império e o poder das big techs sobre o conjunto da nossa vida”, afirmou.

Busca por soluções

O seminário Feminismo Urgente foi organizado pelo Grupo Corpolítica (UFRN), pela Marcha Mundial das Mulheres, pelo DIAAD/UERN, em parceria com a faculdade de Serviço Social da UERN, pelo Centro Feminista 8 de Março, bem como pelos mandatos da deputada estadual Isolda Dantas (PT) e das vereadoras Brisa Bracchi (PT), de Natal, e Plúvia Oliveira (PT), de Mossoró.

Durante o evento, Isolda, 51, propôs que a Marcha Mundial das Mulheres crie um grupo de trabalho para acompanhar o PL 6194/2025 e organize uma campanha nacional, a fim de mobilizar a sociedade sobre o cenário de exploração e ódio às mulheres nas redes sociais, alertando especialmente as mulheres e as juventudes. “Para a gente dizer que a culpa não é só daquele menino que está lá dentro do quarto. É mais do que isso. É um modelo de sociedade. É um modelo que vem se reestruturando”, apontou.

Já Brisa, 27, acrescentou que o seminário, ao adicionar novas perspectivas e referências ao debate, “não pode ser um ponto final”, mas “um ponto de partida” que organize, a partir do feminismo, as alternativas àquilo que foi discutido. “Por isso o título é Feminismo Urgente. Porque para a gente conseguir combater a misoginia não vai ter outro caminho que não seja a construção do feminismo, do feminismo popular, da organização das mulheres”, disse.