Foto: Letícia Anjos.

Por: Gilvictor Nascimento e Cecília Dantas.

O quarto dia da Semana de Comunicação (SeCom) da UFRN acontece nesta quinta-feira (19), no auditório 1 do Departamento de Comunicação (Decom), com a mesa sobre “Diálogos do audiovisual potiguar com o Nordeste”. O encontro reúne nomes atuantes no setor, como o diretor e produtor Pedro Fiúza, especialista em cinema pela UFRN representando o Rio Grande do Norte na discussão, a roteirista e diretora Luciana Vieira representando o Ceará, a atriz Ane Oliva representando o Alagoas, o produtor audiovisual Gabriel Pires representando a Bahia e na mediação a professora de audiovisual paraibana Kalyne Almeida. A discussão foi pautada em promover reflexões sobre os desafios e caminhos do audiovisual na região.

A dificuldade de circulação do audiovisual potiguar foi um dos pontos centrais debatidos na mesa “Diálogos do audiovisual potiguar com o Nordeste”, realizada durante a SeCom, na UFRN. Apesar da produção crescente de filmes no Rio Grande do Norte, realizadores destacaram a falta de espaços de exibição no estado, o que faz com que muitas obras encontrem mais visibilidade em festivais de outras regiões e até no exterior. A ausência de salas públicas de cinema e a limitação de um circuito exibidor contínuo, aliado ao alto custo das salas comerciais, tornam o acesso ainda mais restrito. Além disso, dados apresentados indicam entraves também na etapa de desenvolvimento dos projetos, como a ausência de aprovações em editais nacionais, mesmo com número significativo de inscrições locais. Diante desse cenário, produtores e coletivos têm buscado alternativas, como a criação de laboratórios e iniciativas independentes, ao mesmo tempo em que reforçam a necessidade de políticas públicas mais eficazes e de maior articulação entre os estados nordestinos para fortalecer o setor.

A fala inicial de Pedro Fiúza reforçou esse cenário ao destacar que a principal barreira do audiovisual potiguar não está diretamente ligada à produção, mas à circulação das obras. Segundo o diretor, muitos filmes sequer chegam ao público local, enfrentando dificuldades de diálogo com distribuidores e limitações de acesso às salas de exibição. Ele chamou atenção para a fragilidade estrutural da capital, que não conta com cinemas públicos e depende quase exclusivamente de espaços comerciais, onde os custos e a disponibilidade de horários tornam inviável a exibição independente. “Temos salas de cinema comerciais, mas não temos salas públicas. Temos filmes, mas não conseguimos exibir”, sintetizou. Fiúza ainda pontuou que obras que circulam em festivais e no circuito nacional não chegam ao Nordeste, evidenciando um descompasso na distribuição e uma espécie de isolamento regional.

Além disso, o diretor problematizou a baixa aprovação de projetos do Rio Grande do Norte em editais nacionais, especialmente na fase de desenvolvimento, questionando a ideia de falta de qualidade das produções locais. Ao citar dados que mostram o estado com número significativo de projetos inscritos mas sem aprovações, ele sugere entraves estruturais desse processo. Apesar das dificuldades, destacou iniciativas locais de formação e desenvolvimento como laboratórios e projetos independentes, que têm viabilizado a produção de novos filmes. Para ele, há um forte potencial criativo e uma demanda por maior articulação institucional, incluindo políticas públicas mais efetivas e a retomada de entidades de classe, capazes de fortalecer o diálogo entre estados e ampliar as possibilidades de circulação, Fiúza concluiu ressaltando a “ vontade muito grande de ver o nosso cinema se destacar nacionalmente internacionalmente”, apontando a integração regional como caminho fundamental para o crescimento do setor.

Dando continuidade ao debate, a participação da realizadora cearense Luciana Vieira ampliou a perspectiva sobre o audiovisual nordestino ao evidenciar tanto desafios compartilhados quanto avanços possíveis fora do eixo Rio-São Paulo. “Nós que estamos fora do eixo, parece que estamos todos lidando com os mesmos problemas”, afirmou, ao reconhecer dificuldades estruturais semelhantes entre os estados. Ainda assim, destacou o caso do Ceará como um exemplo de continuidade em políticas culturais, o que lhe permitiu construir toda a sua trajetória profissional no próprio estado: “eu nunca tive que sair do Ceará. Tudo que eu fiz foi feito aqui”. A fala reforçou o papel decisivo do investimento público, desde a formação acadêmica até editais e laboratórios de desenvolvimento, considerados estratégicos para fortalecer projetos e ampliar sua inserção no mercado. Ao abordar os altos custos de produção e a dependência desses mecanismos, Luciana foi enfática: “a gente depende da política pública, de uma maneira até às vezes assustadora”. Apesar disso, apontou caminhos possíveis a partir da articulação coletiva entre realizadores, defendendo que o crescimento do setor ocorre de forma conjunta, em um processo no qual “o sucesso de um vai dando o sucesso do outro”.

Posteriormente, a palavra foi direcionada à atriz Ane Oliva, que compartilhou sua experiência com o audiovisual alagoano. Ela ressaltou como sua carreira acompanhou a evolução do cinema em Alagoas e as mudanças enfrentadas pela indústria desde então. “Comecei com o audiovisual no teatro; naquela época, o cinema em Maceió era praticamente inexistente. O pouco de produção que chegava vinha do eixo (fora do cenário nordestino) e não havia interesse em adotar a arte alagoana”, afirmou.

Ane comparou o cenário alagoano com o potiguar e destacou que, apesar de um início lento em Alagoas, atualmente há maior potencial de crescimento na área. A atriz também enfatizou a importância do intercâmbio artístico e cultural entre estados nordestinos para ampliar a produção audiovisual e possibilitar alcance nacional e internacional. “Hoje em dia, podemos buscar conhecimento técnico e apoio de outros estados. Não me sinto mais uma estrangeira quando sou chamada para projetos pernambucanos, por exemplo… sinto que estou sendo reconhecida”, concluiu.

O produtor audiovisual Gabriel Pires reforçou a fala de Ane sobre o intercâmbio cultural no Brasil. “Entender que temos mais a ganhar nessas trocas do que a perder… e que só unidos podemos pressionar por iniciativas políticas que valorizem o audiovisual brasileiro”, afirmou.

Ele também destacou a necessidade de mais projetos públicos voltados ao setor e a importância de laboratórios e editais, anteriormente citados por Luciana. “A política cultural nos estados e municípios hoje depende de recursos. Por isso, é relevante observar exemplos como Ceará e Pernambuco, que desenvolvem políticas públicas com recursos próprios, servindo de referência para outros estados”, disse. A mediadora Kalyne Almeida complementou: “É importante ter referências próximas, do Nordeste, para entender que é possível ter sucesso na área com projetos feitos aqui por gente daqui”.

Gabriel ainda deixou um recado final aos estudantes de audiovisual: “Aproveitem o ambiente universitário para experimentar e se unir. Pressionem o poder público, pois só assim veremos mudanças”. Ele também criticou os currículos acadêmicos, apontando a concentração de disciplinas práticas em poucas matérias ao longo do curso, o que considera preocupante diante do cenário de distribuição cinematográfica no país. “A gente percebeu com alguns projetos voltados a laboratórios universitários que vocês estão sendo formados no campo artístico-narrativo e no campo técnico. Mas as matérias de produção, de legislação, de distribuição, que são muito importantes para visão prática de mercado estão todas acumuladas em uma ou duas matérias, num período de oito semestres. E isso é preocupante, principalmente no cenário difícil do cinema no Brasil”.

Após as considerações, a mesa foi aberta a perguntas e respostas juntamente com um diálogo final entre organizadores e público. O evento foi uma das diversas atividades abertas ao público ofertadas em comemoração a Semana da Comunicação, que vai durar dos dias 16 ao dia 20 de março de 2026.