Dona Celu segurando uma de suas obras / Foto: Anderson Oliveira

Por Agatha Pessoa, Camila Lima e Leonardo Cassimiro

A Biblioteca Central Zila Mamede, na UFRN, recebe a exposição “Catarse” até a próxima sexta-feira (4). No Hall de Exposições, a artista plástica Maria Célia Seabra Barroso dá as boas-vindas aos estudantes da Universidade e visitantes interessados nas obras que apresentam sua história de superação emocionante.

As artes, pintadas em telas, canecas e camisetas, contam em cada traço uma narrativa de aceitação e libertação de sua criadora, que precisou se reinventar após sofrer uma lesão no ombro direito que a impediu de continuar exercendo sua paixão com a mão principal. Casada há 53 anos e mãe de dois filhos, sempre foi uma mulher de coragem e resiliência, traços que, assim como em sua vida pessoal, marcam seu trabalho artístico pela resistência ao se manter na luta contra os estigmas relacionados à gênero e idade.

Mãos que fazem arte / Foto: Anderson Oliveira

Dona Celu sempre soube que a arte estava em seu destino desde a infância. Com base em suas memórias, confessou ter sido uma criança muito traquina, que até mesmo correu atrás de uma colega no colégio de freiras após esta ter amassado uma dobradura sua. A arte, para ela, nunca foi apenas uma paixão, como também uma forma de expressão em sua forma mais pura. Sua curiosidade e dedicação estavam presentes em cada detalhe, seja no cuidado com os desenhos ou na forma como se entregava ao ensino.

Durante anos, exerceu com dedicação o cargo de professora de História, onde conquistou seus alunos, não apenas pelo conhecimento, mas também pela doçura de sua voz ao cantar, que chegava a fazê-los querer dormir durante os intervalos das aulas. Em sua história de vida, Dona Celu sempre demonstrou ter uma verdadeira alma de artista, com um desejo incessante de aprender, criar e ensinar.
Maria Célia Seabra Barroso trabalhando em sua exposição na BCZM / Foto: Anderson Oliveira

Atualmente, um de seus maiores sonhos é desenvolver uma oficina voltada para idosos, com o objetivo de ajudá-los a se reencontrarem e redescobrirem sua vitalidade por meio da arte. Ela compartilha que se sente profundamente triste ao ver pessoas de idade avançada sem o brilho no olhar e acredita que a arte pode ser uma forma poderosa de resgatar essa chama interior. Além de nutrir um carinho especial pelos jovens, desejando continuar incentivando-os, para mostrar que a arte pode ser um caminho de expressão e transformação, assim como foi em sua própria trajetória.

Suas obras foram notadas por um professor universitário de Fortaleza, Daniel Brandão, a quem ela se refere de forma carinhosa: “Eu considerava rabiscos e ninguém nunca tinha me falado nada. Mas ele viu além. Disse que meu trabalho tinha potencial e que eu estava pronta. Foi ali que percebi: eu estava pronta e não sabia”, relembra emocionada.

Obra de Dona Celu exposta na Biblioteca Central Zila Mamede / Foto: Anderson Oliveira

O nome não foi escolhido ao acaso. Para ela, cada traço representa uma libertação emocional e um reencontro com seu eu mais profundo: sua Catarse. “A arte me deu um propósito e me ajudou a superar os obstáculos. Não é milagre, mas é um processo que ajuda muito”, recorda ao contar como desenhar à noite, quando as dores eram mais intensas, se tornou uma terapia.

Durante sua recuperação, Celu não desistiu de criar, aprendendo a usar a mão esquerda em seu ofício, já que inicialmente era destra. O que, segundo ela, revelou uma gama de novas possibilidades artísticas.