por Sebastião Albano¹
Nosso segrego (Grace Passô, 2026) foi exibido no Teatro Alvear na avenida Corrientes, centro nervoso do Distrito de Teatro em Buenos Aires, com bom público e a diretora presente. “Estou contente de estar na América Latina de novo. Fui a Berlin mas lá tive vontade de voltar para casa”, nos disse Passô na frente das boas instalações culturais que abriga parte das mostras do 27 BAFICI. O filme brasileiro concorre com 25 produções internacionais ao galardão máximo. Na competição argentina, 29 películas disputam o prêmio.
Domingo 26 encerra-se o BAFICI, considerado um dos festivais de filmes independentes mais importantes da América Latina, com mais de 300 produções e mostras paralelas que compreendem diretores como Liliana Paolinelli, James Benning, Pere Portabbella, György Pálfi, Yugo Sakamoto entre outros.
Já no Hall Casacoberta, no Teatro San Martín, espaço dedicado aos painéis do BAFICI no Teatro San Martín, na sessão Actividades Especiales, houve o lançamento do livro P3RRON3 ÍNTIMO de Raúl Perrone, artista local de grande prestígio considerado como “o verdadeiro independente”, segundo vozes coletivas do público clamavam enquanto o homem na casa dos 70 (dos 1970?) desce a bela escadaria modernista da sede mais encantadora do BAFICI.
O livro de Perrone contém ilustrações, pinturas, caricaturas, verificando num só objeto, o livro, aquela formação em convergência típica do artista sul-americano de hoje, ícone do sujeito moderno (e do pós-moderno? Totalidade e fragmento). Publicado pelo selo ASL e com boa participação do público, a documentarista Carmen Guarini (Ata tu arado a una estrela, 2018, entre muitos outros), na plateia, teceu comigo elogios ao homenageado com seu olhar enquanto conversávamos a propósito das questões (políticas?) que impedem de sair ao ar o site institucional Orbis Tertius na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em que aparecerá o estudo e a entrevista que realizei com ela em 2025.
Guarini concordou que as instituições públicas dependem de muitos arranjos e logo aclarou uma curiosidade minha sobre a proliferação dos festivais na região, por ela considerada algo natural. O incremento nos números do BAFICI (público, filmes, mostras, diretores) pode ser um espelho para o DocBuenosAires, por exemplo, evento mais especializado que ela mesma dirige na cidade. “O DocBuenosAires está na 26 edição, um ano depois da fundação do BAFICI”, sintetizou seu raciocínio com naturalidade.
As duas seções/sessões do BAFICI, Nosso segredo e o lançamento do livro de Perrone, aconteciam em paralelo há poucos metros de distância, onde Passô e Guarini comunicavam cada uma de sua parte, com grandezas próprias, a efervescência de semelhante evento para a saúde da democracia latino-americana. De fato, percebia-se ali nas entrelinhas a eletricidade crítica no que tange à redução das verbas do Estado para empresas tão necessárias e tão ambíguas como a promoção de um Festival, tópicos sempre à espera de uma faísca para redundar em teses e antíteses sem fim, poucos claras e massa informe para o processo de conformação de opiniões desfavortáveis ou favoráveis aos grupos hegemônicos, que em geral dispõem das verbas para a cultura.
A cidade de Buenos Aires financia o BAFICI e Grace Passô veio à capital portenha com verba do Instituto Guimarães Rosa, órgão do Itamaraty encarregado da diplomacia cultural do Brasil. Segundo a mesma diretora, seu filme enverga um tipo de conteúdo político singularizado pela casa de subúrbio que projeta, pelos tipos sociais que ali circulam em modo de cinema, pela música de Amaro Freitas (penso eu…), pelo perfil menos partidista e mais partidário que enrista.
O BAFICI fecha suas portas no domingo com as premiações malgrado seus estímulos cursem ao longo do ano em busca de atualizar-se tanto nos modos de se atravessar as concorridas e belas veredas de Buenos Aires, na maneira em que se conversar com o colega de trabalho, como nas intenções de voto no Brasil e aqui. O curso avança mesmo sendo quase ameaçado pelo fluxo verborrágico das imagens que na Argentina tem o componente da ascensão de um possível candidato presidencial para 2027 com os expedientes políticos concentrados na posição de pastor neopentecostal. Dante Gebel, de 57 anos, para o jornalista e escritor Alejandro Seselovsky, do Le Monde Diplomatique, resume o tipo de protagonista que ascende na trama midiática das corridas eleitorais nas democracias contemporâneas.
O cabeça-messias da River Church, igreja fundada por Dante Gebel, sintetiza numa só figura os traços de “um influencer, um fixer vocacional” ao mesmo tempo em que se emerge como um importante quadro peronista. Aqui a figura do consenso de funções políticas e midiáticas num só ator social não parece proporcionar bom augúrio como resultado no caso de artistas como Grace Passô (dramaturga, escritora,atriz e cineasta), Carmen Guarini (antropóloga, professora, produtora e cineasta) e Raúl Perrone.
Próximo das eleições presidenciais de 2026 no Brasil e de 2027 na Argentina corre-se o risco de a livre imaginação orientada pela produção e projeção de filmes cujo teor político não se apresenta agônico ou maniqueísta (direita ou esqueda?) num primeiro olhar, engendrar uma inteligência crítica.
A espécie de alienação produtiva dos filmes contemporâneos, favorável ao abandono e ao prazer do politicamente correto bem comportado, numa região cuja tradição do cinema (não do audiovisual em si, digamos, encabeçados pela lógica da televisão) descansa no antagonismo social em relação ao Estado, portanto ameaça desalinhar as mensagense dos meios de comunicação que compõem eles mesmos o espaço público.
Nessa outra convergência, o progressista volve-se reacionário sem esforço. Daí dever-se mesmo desconfiar da leveza que encerra parte das peças do festival numa região cuja tradição cinematográfica (Cine Imperfecto, Estética da Fome, Grupo Liberación etc.) obedece sobretudo a nomes como Raymundo Gleyzer e Leoan Hirzsman. Finalmente, lanço meu olhar hoje estranhamente alquebrado, condição que julgo provisória, sobre a programação do BAFICI e não vejo filmes cubano. Recordo-me da situação da cidade de Havana quando fui em 2024 para seguir com o projeto Orbis Tertius e quase compreendo a ausência dos seus cidadãos aqui em Buenos Aires. Me satisfaço então com a influência entre os diretores e técnicos da América Latina exercida pela Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de los Baños (EICTV, Cuba), fundada por Fernando Birri. Isso satisfaz um pouco, e lembro que Fedric Jameson soia considerar (junto com boa parte dasconsciências mais iluminadas) a Revolução Cubanao grande evento para o mundo nos anos 1960, e tal como as melhores plumas comunistas e socialistas, prefere criticá-la a fim de refiná-la nos conteúdos políticos ocorridos a partir de 1959. Feliz aniversário Brasilia!!!
1: Sebastião Albano é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e atualmente trabalha em seu pós-doutorado em Portugal, no México e na Argentina. Está em Buenos Aires cobrindo o BAFICI (Festival de Cinema Independente de Buenos Aires, versão XXVII)







