Kaiony interpretando Vilmar em ‘O Agente Secreto” foto:reprodução.

Por: Heloisa Brito.

O ator potiguar Kaiony Venâncio, de 46 anos, vem conquistando cada vez mais espaço no
audiovisual brasileiro após sua participação no filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber
Mendonça Filho. No papel de Vilmar, Kaiony se destacou diante do público e da crítica pela
atuação intensa e fria, que marcou uma das cenas mais impactantes da trama.

O convite para participar de O Agente Secreto também surgiu de forma inesperada. Kaiony
conta que o diretor Kleber Mendonça Filho havia pedido em seu perfil no Instagram que
pessoas de todo o Brasil enviassem um vídeo de apresentação. “Eu esqueci de enviar. Aí
um amigo veio me lembrar e eu pensei: ‘Graças a Deus, ainda dá tempo.”

O início da carreira

O início da carreira do ator aconteceu de forma inesperada. Kaiony começou a atuar aos 29
anos, considerado por ele mesmo um começo tardio para quem deseja seguir no teatro.
Seu primeiro contato com a arte aconteceu dentro da igreja evangélica, onde participava de apresentações teatrais e atividades musicais. Aos 29 anos, participou de uma missão da
igreja em que atuou como palhaço para animar as crianças. Foi justamente nesse ambiente
que despertou seu interesse pela atuação.

A decisão de seguir na carreira surgiu após o convite de um amigo para participar de uma
oficina de teatro. Mesmo doente na época, Kaiony aceitou o desafio e decidiu tentar.
Poucas semanas depois, já integrava um grupo teatral e fazia sua estreia profissional em
um espetáculo de rua realizado na cidade de Monte Alegre, durante uma apresentação
sobre violência contra a mulher no Dia Internacional da Mulher, em março de 2009. O
primeiro cachê foi simbólico. “Estou feliz. Meu primeiro cachê, é de vinte reais”.

Foto: instagram.

No mesmo dia em que se preparava para gravar o vídeo, recebeu um e-mail da produção
pedindo que fizesse um teste para o personagem Vilmar. O ator gravou o material e enviou.
Alguns dias depois, recebeu uma ligação de seu agente, Marcílio Amorim, da agência
Trama. Na conversa, Kaiony recebeu a notícia de que Kleber queria conhecê-lo
pessoalmente em Recife.

A preparação

“Foi uma preparação bem intensa. Eu só sabia o que estava escrito no roteiro. Quando o
Kleber chegou, de bicicleta, sem glamour nenhum, fui gravar a cena do porto”, recorda.

Kaiony também se emocionou com a acolhida da equipe. “Eles estavam muito felizes por
terem encontrado o Vilmar que queriam. Quando cheguei à sala da produção em Recife,
tinha um pessoal trabalhando. Eles se levantaram e fui apresentado: ‘Esse é Kaiony, vai
fazer Vilmar’. Eu falei: ‘Não, gente, não precisa levantar’.”.

“Eu pensava que era mais fácil quando li o roteiro. Mas, conforme Kleber foi direcionando,
fui entendendo que era diferente do que eu tinha imaginado”, relembra. Segundo o ator, o
diretor procurava alguém que transmitisse um olhar frio e intimidador, característica que
acabou marcando o personagem.

Kaiony interpretando Vilmar em “O Agente Secreto”. foto: reprodução.

O sucesso estrondoso

Apesar de ser um vilão, Vilmar conquistou o público. Nas redes sociais, Kaiony afirma
receber comentários curiosos de espectadores que se surpreendem ao conhecê-lo
pessoalmente. “O pessoal diz: ‘Você é muito assustador no filme, mas quando a gente
conversa percebe que você é um fofo’. Minha esposa brinca muito com isso”, relata.

Para o ator, parte da identificação do público com o personagem também está ligada à
origem social de Vilmar. Segundo ele, muitas pessoas reconhecem no personagem a
realidade de alguém que veio do interior e que reage a situações de desvalorização e
humilhação no trabalho.

Kaiony Venâncio e Wagner Moura. foto: instagram.

Um dos principais desafios, de acordo com Kaiony, foi encontrar o tom certo da
interpretação. Diferente de personagens mais explosivos, Vilmar precisava transmitir tensão e intensidade de forma contida. “O desafio era fazer tudo menor, mais curto, sem
grandiosidade. A força do personagem está justamente na calma e na frieza”, explica.

Entre as cenas mais marcantes das gravações, o ator destaca a sequência de tiroteio,
considerada por ele a mais difícil de executar. “Foi difícil porque tudo era coreografado. Eu
precisava puxar a arma da cintura, posicionar o dedo correto no gatilho e fazer tudo no
tempo certo. Mesmo ensaiando bastante, eu ainda errava”, lembra.

Além da atuação, Kaiony destaca a importância do trabalho coletivo em uma produção
cinematográfica. Para ele, o resultado de um filme depende da integração entre elenco e
equipe técnica, formada por profissionais de áreas como figurino, maquiagem, fotografia e
produção.

O elenco de O Agente Secreto reuniu artistas de diferentes regiões do país, algo que o ator
considera enriquecedor. Segundo ele, a diversidade de sotaques e experiências contribuiu
para tornar o ambiente de trabalho mais dinâmico.

A repercussão do filme também ultrapassou as fronteiras do Brasil. Kaiony participou da
exibição em Cannes e afirma que ficou surpreso com a recepção internacional da obra,
especialmente nos Estados Unidos, onde o personagem Vilmar ganhou destaque em
materiais de divulgação voltados ao público estrangeiro.

Tânia Maria e Kaiony Venâncio no Festival de Cinema de Gostoso. foto: instagram.

A repercussão do filme também ultrapassou as fronteiras do Brasil. Kaiony participou da
exibição em Cannes e afirma que ficou surpreso com a recepção internacional da obra,
especialmente nos Estados Unidos, onde o personagem Vilmar ganhou destaque em
materiais de divulgação voltados ao público estrangeiro.

Em tom bem-humorado, Kaiony brinca com a possibilidade de reconhecimento individual.
“Quem sabe um dia eu não apareço como indicado a melhor ator coadjuvante? Lembrem de mim, viu, Academia”, disse, rindo. “Eu quero poder falar: I wanna thank the Academy”.

Kaiony contracenando com Wagner Moura em “O Agente Secreto”. foto: reprodução.

Com o sucesso do filme, o ator também passou a perceber com mais intensidade a
importância das redes sociais na carreira artística. Para ele, as plataformas digitais se
tornaram uma ferramenta essencial para divulgar o trabalho e se aproximar do público.
“Hoje não é só atuar. O artista também precisa saber usar as redes sociais para mostrar seu trabalho e se conectar com as pessoas”, diz.

Questionado sobre o futuro, Kaiony afirma que pretende continuar investindo no cinema,
embora também tenha interesse em participar de séries e novelas. Para ele, as produções
audiovisuais em diferentes formatos permitem explorar novas possibilidades de
interpretação e ampliar a presença do artista no mercado.

Kaiony também deixa um conselho para quem deseja seguir carreira no audiovisual. “Não
abandone o trabalho que você tem hoje para viver só da arte. Tente conciliar as duas coisas até chegar ao momento em que seja possível viver apenas do seu trabalho artístico”,
orienta.

Para o ator, a trajetória que começou de forma inesperada dentro da igreja e em
apresentações de teatro de rua ainda está apenas no começo. “Hoje eu não me vejo só
como um ator potiguar. Sou um ator do mundo. Onde eu for trabalhar, levo o Rio Grande do Norte comigo”, afirma.

Dinho Brito, Helo Brito e Kaiony Venâncio no dia em que foi feita a entrevista. foto: arquivo pessoal.