Por Clara Ribeiro, Gilvictor Nascimento e Letícia Anjos
Na novela Três Graças, o casal “Loquinha”, composto por Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky), se transformou em um dos maiores sucessos recentes da teledramaturgia brasileira. Com forte envolvimento nas redes sociais, um impacto global e a criação de um spin-off próprio, a dupla ultrapassou as fronteiras da ficção e começou a desempenhar um papel importante na discussão sobre representatividade na TV aberta.
Os números não são a única explicação para o sucesso. Ele está diretamente relacionado à maneira como o relacionamento é desenvolvido: de forma natural, com profundidade emocional e sem recorrer a estereótipos frequentemente associados a personagens LGBTQIAPN+.
Representação em transformação
A televisão brasileira, historicamente, apresentou personagens LGBTQIAPN+ de maneira limitada, muitas vezes restrita a papéis secundários ou abordagens superficiais e estereotipadas. Nesse contexto, parte do sucesso de “Loquinha” está na forma como a relação é construída, um relacionamento central na narrativa, com desenvolvimento contínuo e conflitos realistas. A trama aborda questões difíceis, como a aceitação pela família e o preconceito, mas também destaca momentos de amor e a vida cotidiana. Isso ajuda a criar uma representação mais justa e equilibrada desses personagens. Essa abordagem técnica de direção e roteiro afastaram as personagens da censura e da “cota de diversidade”. Elas não estavam ali apenas para sofrer preconceito, elas estavam ali para viver algo real.
O rompimento da “censura de afeto”
Durante muito tempo, demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo gênero na televisão aberta foram tratadas como momentos raros. Beijos e gestos de carinho eram apresentados como eventos isolados, cercados de polêmica, em vez de fazerem parte natural da construção dos relacionamentos. Esse tipo de abordagem criou uma espécie de “censura simbólica”, em que o amor LGBTQIAPN+ podia até existir na narrativa, mas sem a mesma liberdade de expressão concedida a casais heterossexuais.
Na novela Três Graças, Lorena e Juquinha romperam com essa lógica. O afeto entre elas é construído ao longo da trama de forma contínua, presente em gestos cotidianos como olhares, conversas e momentos de cuidado, sem depender de um único marco para se validar. Ao tratar o carinho com naturalidade, a novela contribuiu para mudar a ideia de que o amor entre duas mulheres é algo fora do comum, ajudando a ampliar a familiaridade do público com essas relações e a consolidar novas formas de representação na televisão aberta.
A quebra da tragédia e a construção da felicidade como forma de resistência
Durante muitos anos, produções audiovisuais recorreram a um padrão narrativo conhecido como “Bury Your Gays”, expressão em inglês que pode ser traduzida como “enterre seus gays”. O termo se refere à tendência de personagens LGBTQIAPN+ terem finais trágicos, seja por morte, abandono ou sofrimento extremo, como se suas histórias estivessem sempre destinadas à dor ou à punição.
Esse padrão não surgiu por acaso. Ele está ligado a um histórico de censura, preconceito e limitação na forma como essas narrativas podiam ser contadas. Ao impedir que personagens LGBTQIAPN+ tivessem finais felizes ou vidas desenvolvidas, a ficção acabava reforçando a ideia de que esses amores não pertenciam ao mesmo lugar que os demais.
Para muitas pessoas, acompanhar a relação entre Lorena e Juquinha é como ver, talvez pela primeira vez, um amor que simplesmente existe, sem precisar se justificar, sem medo ou punição por ser verdadeiro. Nesse sentido, o sucesso de “Loquinha” se destaca justamente por ir na direção oposta. Ao construir uma relação baseada em afeto, continuidade e possibilidades de futuro, a novela rompe com essa lógica e propõe uma nova forma de representação, em que o amor entre pessoas do mesmo gênero não precisa terminar em perda para ser considerado legítimo.
A representatividade e comunidade LGBTQIAPN+ no contexto sociocultural
A comunidade LGBTQIAPN+ conseguiu conquistar seus direitos reconhecidos a partir da rebelião de Stonewall, iniciada em 28 de junho de 1969, no bar de Stonewall Inn em Nova York. Os conflitos, liderados por pessoas negras e transgêneros como Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, impulsionaram a luta por igualdade, visibilidade e respeito. Antes da revolução, ser homossexual ou transgênero era considerado crime em quase todos os estados americanos. Atos consensuais eram puníveis com prisão e, em casos extremos, internação compulsória. A patologização, também foi um empecilho para a comunidade, a homossexualidade era classificada como uma doença mental pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), classificação que só mudaria anos depois da revolta. Naquela época, pessoas LGBTQIAPN+ sofriam muita repressão policial. Era comum a polícia invadir bares frequentados por gays, lésbicas e pessoas trans, prender clientes e até expor suas identidades publicamente.
No contexto brasileiro, a influência de Stonewall não foi imediata, mas foi essencial, e abriu margem para a conquista dos direitos para pessoas LGBTQIAPN+. No ano de 1969 o Brasil estava no auge da ditadura militar, ou seja, qualquer ato ou movimento de protesto, organização social já era reprimido, ainda mais algo ligado à diversidade sexual. Então, diferente dos EUA, o Brasil demorou a ter sua mobilização.
Mesmo assim, o impacto de Stonewall começou a aparecer nos anos 70 e 80, principalmente de três formas, sendo elas: O surgimento dos primeiros movimentos organizados, tendo eles inspirados pelo que aconteceu nos EUA, começaram a surgir os primeiros grupos LGBTQIAPN+ no Brasil, como o jornal Lampião da Esquina, lançado no fim dos anos 70. Ele foi um marco porque falava abertamente sobre sexualidade, política e direitos, algo bem ousado para a época.
A ideia de “orgulho” também chega ao Brasil, Stonewall ajudou a transformar a narrativa: de vergonha e silêncio para visibilidade e orgulho. Essa mudança influenciou diretamente o surgimento, anos depois, da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, que hoje é uma das maiores do mundo. Além do fortalecimento das lutas por direitos, A partir das décadas de 1990 e 2000, o Brasil passou a registrar avanços significativos na garantia de direitos da população LGBTQIAPN+, com destaque para o reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo e a implementação de políticas públicas voltadas ao combate à discriminação. Embora essas conquistas sejam resultado de articulações internas e de lutas históricas no contexto nacional, elas também dialogam com marcos internacionais como os Stonewall Riots, que se consolidaram como símbolo global da eficácia da resistência coletiva na promoção de direitos civis.
A importância da representação do casal Loquinha na vida de pessoas LGBTQIAPN+
Durante muito tempo a TV aberta vem tentando representar relacionamentos homoafetivos, porém sempre estereotipado, o casal Loquinha na novela três graças foi diferente do “normal” para uma novela de horário nobre, o casal surge naturalmente, de uma forma que faz o telespectador se apaixonar por elas.
Em entrevista com Fátima Gonçalves, 24 anos, estudante de Geografia, ela falou como se sentiu durante as exibições da trama. “ A novela me faz ter esperança de um mundo melhor, porque eu assistia novelas antigamente que tinham personagens LGBTs e eles sequer davam as mãos ou um simples selinho, era um espetáculo pra mim, mas pra outras pessoas já era sinal de indecência”.
Em um mundo onde a homofobia sempre prevaleceu, ter a representatividade em horário nobre é significativo. Fátima afirma, “Com a Lorena e Juquinha na novela das 21h parece que o mundo começou a abrir os olhos e as portas pro que é real, que é o amor de duas mulheres da sua forma mais pura, é muito bonito ver elas com tanta naturalidade dentro da novela e também pra quem assiste, vendo a representação de algo genuíno”.
Fátima, assim como milhares de pessoas que se sentem representadas, são exemplos que demonstram a proporção desse conteúdo, trazendo sentimentos reais, desde o início da relação do casal. Trazendo toda a trajetória, principalmente da Lorena, desde sua relação com a família e as reações até sua vida ao lado da Juquinha.
Demonstrando para o público os sentimentos reais vividos por pessoas LGBTQIAPN+, a trama faz sucesso por diversos motivos, porém é perceptível a repercussão do casal Loquinha no país, demonstrando a força de uma representação como essa, ganhando espaço para demonstrar um amor homoafetivo tão puro e verdadeiro. O desenvolvimento do casal corrompe os estereótipos abordados ao longo do tempo, assim quebrando os paradigmas impostos por uma sociedade preconceituosa.
Após o grande sucesso do casal na trama, foi gravado separadamente cenas para uma novelinha ( Que são micro novelas com capítulos curtos, para consumir rapidamente, em redes sociais ou plataformas de streaming ) a ideia foi adotada para o casal “Loquinha” devido seu sucesso, trazendo ainda mais um pouco da história das duas.
A expansão do fenômeno: da TV para as redes
O lançamento da “novelinha” de Loquinha, ocorrido no dia 6 de abril, marcou uma nova forma de como a televisão se conecta com o seu público geral. Criado de forma exclusiva para as redes sociais, o spin-off de Três Graças se tornou um fenômeno rapidamente, a produção já superou a marca de 120 milhões de visualizações, somando todos os canais oficiais da Globo.
Com episódios mais curtos e no formato vertical, a “novelinha” expande a narrativa de Lorena e Juquinha, retratando a rotina do casal e destacando momentos de carinho, diálogos importantes e desavenças. Essa estratégia aproxima o público das personagens, reforçando a conexão com a história.
O seu sucesso nas redes sociais mostra o quanto as pessoas estão se envolvendo na divulgação do conteúdo. Além disso, a “novelinha” enfatiza a importância da representatividade ao apresentar um casal LGBTQIAPN+ como protagonista, contribuindo para a normalização dessas vivências e ampliando as opções de identificação na televisão brasileira.






