Júnior com as três filhas. | Foto: acervo pessoal da família.

Um perfil jornalístico produzido por Tainá Luane

Há homens que se medem pelo que conquistaram. Outros, pelo que acumularam. Júnior se media pelo que insistia em continuar funcionando, mesmo gasto, mesmo imperfeito. Um rádio que chiava. Uma poltrona desgastada. Um disco tocado cem vezes. Era assim que ele amava as coisas, e era assim, também, que tratava as pessoas: não pela perfeição que tinham, mas pela permanência com que ficavam.

Isauro Sérgio Rosado Maia Júnior nasceu em Recife, capital de Pernambuco, em 1958. Para todos, era só Júnior. Mais tarde, mudou-se para Natal, formou-se em História e Sociologia pela UFRN. Virou professor da rede estadual. Não lecionou em anfiteatro nem em banca de mestrado, lecionou em sala de aula de verdade, giz na mão, a história contada a quem precisava ouvir, ano após ano, turma após turma. Casou-se com Maria Dalva. Teve três filhas. Foi nesse meio-tempo, entre o quadro-negro e a casa cheia de meninas, que Júnior construiu a vida que, décadas depois, ganharia sua forma mais quieta: a de avô, na poltrona da sala, com café e livro ao alcance da mão.

Essa vida cabia inteira numa sala. Não um quarto. Uma sala de verdade, ampla, reservada só para ele. No centro, a poltrona: madeira antiga, acolchoado marrom, desgastada nos braços e no assento pelos anos sentados ali, lendo. Era o trono de um reino pequeno e silencioso. Ao redor, as estantes, livros velhos e amarelados, muitos lidos e relidos tantas vezes que pareciam ter sido escritos só para ele, cada releitura deixando uma dobra nova na lombada, um cheiro mais forte de páginas envelhecidas. Era ali que Júnior vivia as tardes inteiras. Um livro aberto numa página qualquer, porque ele nunca marcava onde tinha parado, confiava na memória, ou talvez gostasse mesmo era de reencontrar o que já tinha lido, como quem revisita um amigo. Uma xícara meio cheia ao lado, sempre. O cheiro de livro velho e café coado, dois cheiros que, naquela sala, eram praticamente um só, indistinguíveis, formando um terceiro cheiro que só existia ali.

E, num canto, a vitrola.

Júnior tinha fases musicais, e contava cada uma delas com orgulho a quem quisesse ouvir, e mesmo a quem não quisesse, porque ele contava de qualquer jeito. Começou apaixonado por rock clássico e ópera, ainda jovem, numa época em que gostar dessas coisas, por si só, uma declaração de quem se era. Foi, com o tempo, se entregando à MPB: Belchior, Titãs, Cazuza, Maria Bethânia e Raul Seixas. Tirava o disco da estante com cuidado, como quem manuseia algo vivo. Mostrava a capa. Contava a história de quando o comprou, onde estava, quanto custou, o que tocava no rádio naquele ano. Só então colocava para tocar, como se a música precisasse vir acompanhada de contexto para fazer sentido, como se ouvir sem saber a história fosse uma forma de desperdício. Era assim que ele amava: mostrando, contando, repetindo, até a história virar tão familiar quanto a própria música.

Com os anos, a vitrola foi cedendo espaço a um radinho pequeno, sempre sintonizado na 104 FM, que chiava no meio da canção e insistia em voltar a funcionar segundos depois, como se também tivesse decidido, à sua maneira, não desistir. Júnior nunca trocou aquele rádio por um novo. Reparava o que dava para reparar, e convivia bem com o que não dava.

Teve também um Fusca cinza, numa fase. Mais um objeto que ele preferia consertar a substituir, pequena prova, entre tantas outras, de que sua relação com as coisas era sempre a mesma: paciência primeiro, despedida só quando não havia mais escolha.

Mas era nas histórias que Júnior guardava o maior dos seus repertórios, maior até que o de discos. Bastava puxar assunto que vinha uma história nova, e essa puxava outra, e mais outra, sobre como as coisas funcionavam antigamente: como era a cidade antes do asfalto, como era namorar sem telefone, como era aprender sem internet. Para ele, o passado nunca estava de fato fechado. Estava sempre ali, à disposição, pronto para ser recontado a quem se sentasse perto o suficiente e tempo suficiente.

Era assim com qualquer criança que se aproximasse, e foi assim com esta que escreve, sua neta. Eu tinha cinco anos quando ele me ensinou a jogar dama, no tabuleiro sobre a mesinha ao lado da poltrona, peças pretas e brancas meio gastas de tanto uso. Explicava as regras de novo, quantas vezes fossem necessárias, sem nunca parecer cansado de repetir. Deixava experimentar um golinho do café, escondido, como quem divide um segredo. Não havia ali nenhuma aula, nenhum discurso sobre o valor de estudar. Havia apenas um homem que ensinava sem parecer que estava ensinando, e que formava sem que a criança do outro lado do tabuleiro percebesse estar sendo formada.

Era gentil. Estava em paz consigo mesmo de um jeito que poucos adultos parecem estar, sem pressa, sem aquela irritação fácil que tantos outros carregam. Acolhedor com quem chegasse perto, fosse neta, fosse aluno, fosse desconhecido. E engraçado nos momentos mais inesperados, como no dia em que uma das filhas chegou em casa com uma tatuagem nova. Júnior, calmo e complacente como sempre foi, olhou, sorriu e elogiou. Encobriu o segredo por ela, como se fosse natural, como se sempre tivesse sido cúmplice antes de autoridade. Até que Maria Dalva descobriu, e quem levou bronca, no fim das contas, foram os dois: a tatuada e o complacente. Depois disso, ninguém na casa aguentou segurar o riso por muito tempo. Era assim que Júnior era: preferia rir junto a corrigir de cima.

Quem o conheceu de perto sabe: o amor de Júnior pela história não ficava só nos livros da estante. Ele se espalhava, para alunos, para filhas, para netos, mesmo quando não parecia estar pegando. Levou anos para germinar em uma de suas netas, que só passou a se interessar pela disciplina depois que ele se foi, como se a ausência dele tivesse, enfim, aberto espaço para o que vinha sendo plantado desde o tabuleiro de dama.

Júnior deixou de fumar ainda cedo. Mas o hábito já tinha deixado sua marca, silenciosa, esperando anos para se revelar. Veio o diagnóstico: câncer de pulmão. Houve tratamento, consultas, exames, a rotina que a doença impõe e que ninguém escolhe. Houve, também, a mesma teimosia de sempre: a vontade de continuar funcionando mesmo gasto, mesmo imperfeito, a teimosia do Fusca que não queria ser trocado, a teimosia do rádio que insistia em voltar a tocar depois de falhar. Mas dessa vez não foi suficiente. Devagar, uma respiração pesada passou a segui-lo por onde andava, instalada num corpo que, até ali, parecia ter sido feito para durar para sempre. A doença avançou e tomou, aos poucos, o que restava de força num homem que já tinha vivido tanto, que tinha dado aula a gerações de alunos, lido milhares de páginas, criado três filhas, guardado segredo de tatuagem, ensinado dama a uma menina de cinco anos, e deixado, em cada gesto pequeno, a história de uma vida cheia.

Isauro Sérgio Rosado Maia Júnior faleceu em março de 2021, aos 62 anos. Não sem deixar claro o que viveu: um homem gentil, em paz, acolhedor, engraçado nos momentos mais inesperados. Um homem de poltrona, café e livro. De uma vitrola cheia de discos contados um a um, e de um radinho velho que, mesmo falhando, nunca deixou de tocar, como ele próprio, até o fim, nunca deixou de ensinar, de contar, de insistir em continuar funcionando.