Por: Belita Lira, CCHLA.
O Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), vinculado ao Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), realizou na sexta-feira, dia 6, no Auditório B do CCHLA, a primeira defesa de doutorado de uma aluna quilombola.
A pós-graduanda Maria Janaina Silva dos Santos defendeu a tese “Quando nos tornamos quilombola: uma etnografia dos negros do Talhado”, sob orientação do professor Anaxsuell Fernando da Silva. A pesquisa analisa os quilombos do Talhado (PB) a partir de um estudo autoetnográfico dos negros na busca, enquanto cidadãos, por direitos coletivos. O trabalho observa a trajetória de luta e resistência dessa população, bem como as vivências nos territórios desde sua formação social até o processo de constituição como cidadãos políticos.
Maria Janaina explica que a pesquisa foi construída a partir da própria experiência enquanto integrante da comunidade estudada. “O processo foi uma jornada de ‘retorno e afirmação’. Realizar uma etnografia sobre o Talhado sendo parte dele exigiu um esforço constante de equilibrar o olhar da pesquisadora com a vivência da quilombola.”, conta.
Segundo ela, o doutorado ultrapassou o espaço tradicional da pesquisa acadêmica. “Não foi um doutorado apenas de gabinetes e livros, mas de escuta atenta às nossas bases e de tradução de saberes ancestrais para a linguagem acadêmica.” A pesquisadora também ressalta os desafios metodológicos e políticos enfrentados ao desenvolver o estudo. “Foi um desafio metodológico e político ocupar esse espaço na UFRN, tensionando as Ciências Sociais para que elas também aprendam a ler o mundo a partir das nossas tecnologias de resistência.”

Maria Janaina afirma que ser a primeira quilombola a defender uma tese no programa carrega um significado coletivo. “Sinto que não abro essa porta sozinha; entro acompanhada por todos os que vieram antes de mim e que foram impedidos de acessar esses espaços.” Para ela, a conquista também evidencia a necessidade de ampliar a presença de pessoas quilombolas na universidade. “Ser a primeira quilombola do programa é, ao mesmo tempo, uma honra e uma reflexão do quanto a academia ainda precisa se enegrecer.”
A pesquisadora acrescenta que espera que a experiência contribua para ampliar o acesso de outras pessoas quilombolas à formação acadêmica. “Sinto que essa porta agora permanece aberta para que outras e outros não precisem mais ser ‘os primeiros’, mas que o acesso de pessoas quilombolas ao topo da formação acadêmica se torne a regra, e não a exceção.”
Maria Janaina também relaciona sua pesquisa ao conceito de bem-viver e ao papel do conhecimento na transformação social. “É a concretização do projeto de ‘bem-viver’ através do conhecimento.” Ao citar a historiadora Beatriz Nascimento, a pesquisadora reflete sobre o modo como a população negra foi historicamente tratada pela academia. “Como dizia Beatriz Nascimento, ‘não se estuda o negro que está vivendo’. Durante muito tempo, a academia nos olhou como um passado a ser catalogado.”

Para ela, sua tese busca alterar essa perspectiva. “Meu doutorado inverte essa lógica: eu estudo o quilombo que vibra, que luta e que se reinventa hoje.” A pesquisadora conclui explicando o posicionamento de sua pesquisa. “Eu não estudo ‘o outro’; eu narro a nós mesmos a partir da vivência, transformando a memória viva em ciência. E o programa de ciêcias sociais da UFRN contribui para uma narrativa de dentro para fora.”, conclui.






