Por: Gilvictor Nascimento, Clara Ribeiro, Leticia Carolina e Letícia Oliveira.
Celebrado anualmente em 8 de março, o Dia Internacional da Mulher tem origem nas mobilizações de trabalhadoras no início do século XX, quando mulheres passaram a reivindicar melhores condições de trabalho, redução da jornada e direito à participação política. Com o passar do tempo, a data se transformou em um marco global de reconhecimento das conquistas femininas em diferentes áreas da sociedade. Ainda assim, o dia também evidencia desafios que permanecem atuais. Levantamentos internacionais apontam que mulheres seguem recebendo, em média, cerca de 20% a menos que homens no mercado de trabalho e continuam entre as principais vítimas de violência doméstica. Portanto, o 8 de março se estabelece não apenas como uma celebração, mas também como um momento de reflexão sobre avanços alcançados e desigualdades que ainda precisam ser enfrentadas.
No Brasil, a discussão sobre os direitos das mulheres também passou a ganhar mais espaço a partir de mudanças na legislação voltadas à proteção contra a violência doméstica. Um dos marcos desse processo foi a criação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340), sancionada em 2006. A norma recebeu esse nome em referência à farmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes, cuja história se tornou conhecida nacionalmente depois de anos de luta para que as agressões que sofreu fossem reconhecidas e julgadas. Na época, a criação da lei expôs o quanto o machismo estrutural ainda estava presente na sociedade brasileira, já que casos de violência contra mulheres eram frequentemente minimizados ou tratados como conflitos privados.
Com a nova medida, diferentes formas de violência passaram a ser reconhecidas, como agressões físicas, psicológicas, morais, patrimoniais e sexuais, além da possibilidade de medidas protetivas que podem afastar o agressor da vítima. Mesmo com esse avanço, os números mostram que o problema ainda é grave: apenas em janeiro de 2026, o judiciário brasileiro registrou 947 novos casos de feminicídio, número 3,49% superior ao registrado em janeiro do ano passado.
Em fevereiro deste ano, o governo federal brasileiro firmou o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio. Coordenada pelo Ministério das Mulheres, a iniciativa busca articular políticas públicas entre União, estados e municípios para prevenir a violência de gênero. O pacto “Todos por Todas” reúne ações nas áreas de prevenção, proteção, responsabilização dos agressores e produção de dados, além de incentivar campanhas educativas e o fortalecimento das redes de apoio às vítimas. A iniciativa parte do entendimento de que o feminicídio não acontece de forma isolada, mas é resultado de um processo contínuo de violências.
Uma das vozes ouvidas durante o encontro para o lançamento do acordo foi da rapper e compositora Ebony. Conhecida por letras que abordam o empoderamento de mulheres, autoestima e vivência feminina negra, a cantora atualmente é uma das principais vozes no cenário do rap nacional e foi convidada para representar a cultura e a periferia na cerimônia realizada no Palácio do Planalto ao lado do presidente Lula, ministros, parlamentares e outros representantes do judiciário. Em seu discurso, Ebony destaca que “o feminicídio é o estágio final de uma doença que começa na infância dos meninos, na forma como eles são socializados e que afeta todas as meninas”.
A afirmação da cantora chamou atenção para um movimento que, nos últimos anos, vem chamando atenção e ganhando notoriedade nas redes sociais. Conhecido como movimento “Red Pill”, em português “pílula vermelha”, trata-se de uma ideologia masculinista, organizada por fóruns de internet e outros canais de comunicação online, que propaga discursos misóginos e machistas. O grupo atrai jovens e adultos de todas as idades oferecendo a narrativa que responsabiliza as mulheres pelas frustrações masculinas, colocando-as em risco, promovendo o ódio e a objetificação feminina, além de defender que elas foram responsáveis por corromper os papéis tradicionais de gênero e, por isso, buscam reverter avanços feministas.
O movimento teve início entre os jovens nos Estados Unidos. O nome faz referência ao filme “Matrix”, de 1999, onde em uma cena clássica da ficção científica moderna o personagem Morpheus oferece a Neo duas opções: a pílula azul, que o faria “cego” e voltar a sua vida normal, ou a pílula vermelha, capaz de levá-lo ao verdadeiro mundo real, longe da farsa cotidiana. A partir da narrativa desenvolvida no filme, a escolha da pílula vermelha passou a representar a metáfora para “enxergar a verdade”. Entretanto, com a ascensão do conservadorismo, grupos de homens que desconsideram a luta feminista e submetem mulheres a uma classe de gênero inferior se apropriaram do uso do termo em uma visão distorcida para questionar a luta feminina.
Essa e outras organizações masculinas como Incel (Involuntariamente Celibatários), Black Pill e MCTOW (Men Going Their Own Way) são alarmantes para especialistas, que alertam que a normalização desse discurso pode reforçar estereótipos, alimentar ressentimentos e legitimar comportamentos agressivos ou de controle nas relações entre gêneros opostos. Em prática, o crescimento desses grupos tem refletido diretamente no aumento de casos de crimes contra mulheres. Atualmente no Brasil, são registradas cerca de 4 mortes por dia referentes ao feminicídio. Mais de 300 mil denúncias são feitas, porém, apenas 18 mil passam a responder criminalmente. Os dados trazem uma reflexão sobre a ampliação de ideias conservadoras, sobretudo a deslegitimação da autonomia feminina e propagação da hostilidade contra a mulher, bem como a segurança e efetividade de políticas públicas estruturadas para a proteção e dignidade feminina.
A proximidade com o Dia Internacional da Mulher e as diversas campanhas de conscientização e valorização não foram suficientes para modificar o cenário atual. No dia 8 de março de 2026, uma mulher de 44 anos foi assassinada pelo companheiro na zona leste da cidade de São Paulo após ser esfaqueada dentro de casa. A vítima chegou a ser socorrida e encaminhada ao Hospital Geral de São Mateus, mas não resistiu aos ferimentos. No dia anterior, 07 de março, outro caso semelhante ocorreu em Praia Grande, no litoral paulista, onde uma mulher de 40 anos foi morta após ser baleada durante uma discussão com o companheiro. O agressor foi preso em flagrante, e o crime foi registrado como feminicídio.
Apesar do contexto violento e opressor que as mulheres sempre estiveram inseridas ao longo da história, elas tiveram papéis fundamentais no desenvolvimento da sociedade, especialmente no Brasil. Além de Maria da Penha, já citada anteriormente, diversas outras figuras se destacaram por suas contribuições pioneiras. Entre elas, Dandara dos Palmares, guerreira negra do período colonial brasileiro e símbolo de resistência contra a escravidão; Nise da Silveira, médica psiquiatra que revolucionou o tratamento em saúde mental ao introduzir métodos mais humanizados e artísticos; Enedina Alves Marques, a primeira engenheira negra do Brasil; e Tarsila do Amaral, pintora e uma das principais representantes do modernismo brasileiro. Recentemente, nomes como o da bióloga e professora da UFRJ Tatiana Sampaio também se destacam na ciência, ao liderar pesquisas sobre a polilaminina, uma molécula com potencial de restaurar a comunicação do sistema nervoso e trazer esperança de recuperação para pacientes com paralisia. Estas trajetórias evidenciam que, apesar dos obstáculos históricos e sociais ao enfrentar barreiras e superar desafios impostos por uma sociedade marcada por desigualdades de gênero, as mulheres seguem ocupando posições essenciais na produção de conhecimento, na arte, na ciência e na luta por direitos.
Diante desse cenário, o Dia Internacional da Mulher revela um contraste evidente entre reconhecimento e alerta. Enquanto a data celebra conquistas históricas e avanços na luta por direitos, ela também expõe a urgência de enfrentar desigualdades e violências que continuam presentes na sociedade. Entre leis, mobilizações sociais e políticas públicas de proteção, permanece o desafio de transformar discursos de valorização em ações concretas capazes de garantir segurança, dignidade e igualdade para todas as mulheres. Assim, mais do que uma data comemorativa, o 8 de março se consolida como um momento de reflexão coletiva sobre os caminhos necessários para que histórias interrompidas pela violência deixem de fazer parte da realidade brasileira.







